| Usina Cultural Energisa - Exposição Tota - barro puro e simples |
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| Escrito por Divulgação | |
| 10-Jul-2008 | |
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Há pouco mais de três anos, a Usina Cultural Energisa realizou, em sua galeria de arte, uma mostra com seis dos principais ceramistas paraibanos: Chico Ferreira, Gina Dantas, Madriano Basílio, Maria dos Mares, Miguel dos Santos e Rosilda Sá. Em que pese a beleza da homenagem à obra produzida em argila, a exposição não foi completa nem justa, dada a ausência de um dos mais expressivos e singulares artistas da “terra”: Tota. Lamentavelmente, a curadoria da mostra então desconhecia que a família do artista tinha um acervo considerável de suas obras... Daí – ainda em tempo, apesar do lapso de três anos – a idéia de reparar aquela lacuna involuntária, com a realização da mais abrangente mostra individual de Tota: a Usina Cultural Energisa, fiel ao propósito de valorizar e difundir a arte paraibana, tem a satisfação de apresentar ao público uma seleção das últimas peças produzidas pelo artista até pouco antes do seu falecimento, ocorrido em junho de 2003. Trata-se de uma gama variada de obras – pratos, placas, potes e esculturas –, todas elas impregnadas do “estilo” peculiar que tanto encantou centenas de turistas e especialistas que visitaram o seu ateliê na modesta casa do bairro dos Novais. Tota – muitos ainda o desconhecem – dedicou uma vida inteira ao universo do barro. Dos tempos em que produzia utilitários em Tracunhaém, na Zona da Mata de Pernambuco – onde metade da população vive de transformar barro “em santo ou em panela” – até emprestar sua experiência à indústria paulista de cerâmica, tudo o que Tota fez na vida, o fez com o barro. Assim, criou família e ganhou notoriedade quando, em 1972, além de exímio oleiro de panelas e potes, se descobriu “artista”! E para comprovar a pureza e singularidade da obra de Tota, conta-se que um crítico de arte carioca propositalmente confundiu um grupo de especialistas em concorrido encontro no Rio de Janeiro, apresentando-lhes uma das cerâmicas do artista como sendo de autoria de Picasso, tal a surpreendente identidade visual das peças de ambos os artistas. Desfeito o mal entendido, todos se espantaram ao saber que o verdadeiro autor era um artista popular da longínqua Paraíba e, mais ainda, que ele jamais ouvira falar de Pablo Picasso...
Dyógenes Chaves (ABCA/ AICA)
Entre o exímio modelador Antônio Paschoal Régis e o popular oleiro Tota, semanticamente navegam a tradição e a sofisticação do significado e do significante, território do saber artesanal acerca do barro paraibano. Se Paschoal revela a subterrânea superfície imagética dos rostos em perfil e imaginários seres, Tota põe a argila a serviço das simplórias necessidades materiais ou ampara e guarda a preciosa água, em fôrmas e quartinhas tão perfeitamente trabalhadas, que difícil separação estética se faz entre o barro útil e o barro ilustrado, já que um serve à sede e o outro à fome de espírito. Assim, Tota é Paschoal – o oleiro; e Paschoal é Tota – o artista, tal como técnica e arte são a mesma coisa, já sabiam os antigos. O artista já estava subterfugido no artesão das quartinhas: explodiu como explodem os trovões ao relâmpago, na imaginária criação de seu mundo revelado. Impressiona-me, comove-me e me deixa feliz, quando às vezes o visito, encontrá-lo no silêncio do seu torno, junto ao seu barro, modelando fôrmas e jarros que são vendidos nas feiras populares com a igual responsabilidade e dignidade, como se fossem as mesmas peças figurativas que terão serventias diversas em mãos burguesas ou salões elitizados. Coerência e dignidade artística seria seu nome, de quem nunca foi mais do que o permanente artesão, que faz na labuta diária do ofício sua profissão. Antônio Paschoal – Tota não representa apenas um artista a mais na constelação paraibana. É para todos nós o mais significativo exemplo de que a arte não se estabelece por força do poder de gostos padronizados; pelo contrário, a verdadeira expressão se revela pela competência. E nisto Tota é um mestre.
Chico Pereira (ABCA)
Currículo: Antônio Paschoal Régis, mais conhecido como Tota, nasceu em Tracunhaém, Pernambuco, em 11 de março de 1932 e faleceu em João Pessoa, Paraíba, em 27 de junho de 2003. Oriundo da mais pura tradição dos oleiros de Tracunhaém, Tota dedicou-se à cerâmica desde cedo. Trabalhou em olarias da cidade de Itabaiana, Paraíba, e foi operário da Indústria Santo Antonio, de artefatos de cerâmica, em São Paulo. Em 1972, fixou residência em João Pessoa, onde passou a realizar exposições individuais a partir de 1975, a primeira das quais no Centro Cultural de São Francisco, João Pessoa; 1976, no SESC de São Paulo; 1978, na Universidade Federal da Paraíba e na Fundação Espaço Cultural da Paraíba; 1981, na Gamela Galeria, João Pessoa. Também participou de exposições coletivas: 1977, na Galeria Batik, João Pessoa, ao lado do pintor José Lucena; 1980, no Centro Social Urbano Monsenhor José Coutinho; 1983, no Espaço Cultural José Lins do Rego, João Pessoa; 1984, no Rio Design Center, Rio de Janeiro; 1985, Coletiva de Inauguração da Gamela Galeria, João Pessoa. Participou do Salão Nacional do Ceará, em Fortaleza, 1984. No XII Fenart-Festival Nacional de Arte (Fundação Espaço Cultural da Paraíba), em abril de 2008, ocupou sala especial como integrante da mostra Panorama da Cerâmica Artística. Possui obras em acervos oficiais e particulares no Brasil e exterior. »
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