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Mellotrons - em transição ou translação? PDF Imprimir E-mail
Escrito por Alexandre Alves   
05-Jul-2008

22621829_bcf1059ee9.jpgQuarto show do quarteto (quinteto?) pernambucano conhecido como MELLOTRONS na cidade solar por excelência. Ironicamente, passeiam por uma espessa camada pluviométrica de Recife até chegar em Natal. "Acho que era uma tormenta só", comenta Enio, também conhecido como "o mago dos efeitos", devido à sua fama de tirar os sons mais estranhos de sua guitarra Fender Jag-stag (ou seria uma modelo Jaguar?).
No carro durante o trajeto, os cinco vinham espremidos em um Gol e recebendo emanações sonoras (Sly & the Family Stone, Cassiano, Jay-Z, DJ Shadow)  que o "roqueiro" menos radical talvez se sentisse ofendido, mas esta é a nova realidade do grupo. "Vá lá na nossa página na internet e veja a votação das pessoas se elas querem os Mellotrons com letras em português ou inglês? Noventa por cento preferem o inglês, mas nós não. Daqui pra frente, será só em português. A não ser que ocorra algum acidente de percurso...", fala Haymone com a calma dos seus vinte e poucos anos que agora curtem o Clube da Esquina, principal causa aparente de o grupo agora querer cantar apenas na língua pátria.

Marcos continua tirando fotos, Rafael se mantém silencioso e ansioso à espera do hambúrguer – ninguém havia sequer almoçado pra chegar em Natal na hora certa do show, 18 horas – e Augusto é observado em misteriosas conversas telefônicas. Enio fala pelos cotovelos e gesticulações, apontando para seus companheiros de som: "Você quer saber a verdade?", desafia Enio. "Então, eu vou contá-la. A única pessoa que mudou foi Marcos. Ele foi pro Hawaii", ao ser perguntado pelas mudanças no som da banda, cada vez mais espacial e menos melódico, ao contrário de seu disco de estréia, lançado em 2006 e marcado por guitarras cortantes e melodias sussuradas à la shoegazers britânicos como MBV, Ride e Pale Saints.


Em plena praça cívica, saboreando os big burguers do ocidental-oriental Tanaka Lanches, Haymone Neto (voz, guitarra), Enio Damasceno (guitarra, voz, sintetizador), Augusto Cezar (bateria), Rafael Guerra (baixo) e o quinto membro sempre oficial, Marcos Muller (baixo, percussão), recém-chegado do Hawaii – seria ele engenheiro? – e de seu Mestrado em Telecomunicações, os mellotrônicos parecem se sentir mais em casa aqui do que lá, tamanhos são os sorrisos e piadas.


Todos na banda começam as generosas risadas que permeiam a entrevista, no entanto entrecruzadas por uma seriedade crítica ao falarem da terra natal, famosa pelo mangue beat e por bandas que agora têm pouco a ver com maracatus, percussão ou odes ao folclore. Como já disse alguém da própria Recife, lá também existem prédios e asfalto. E vida urbana. "The evening is my day", diz o mais famoso refrão dos Mellotrons até agora. Vejamos se a banda consegue se recriar também na sua língua materna. Eis o desafio.


"Com o quê os Mellotrons parecem?", Marcos diz que pessoas sempre perguntam a ele isso. Fala que não parece com nada. Haymone: "Parece com uma banda de rock", Augusto concorda. Enio diz que não sabe definir, o mesmo que Rafael. Transição ou translação? Rotação.
 

A entrevista:
 
B: Sem dúvidas, há uma mudança no som de vocês.
 
ENIO: Foi espontâneo. Desde que eu entrei na banda, perguntava a Haymone porque não em português? Mas era tudo uma pressão...
MARCOS: Eu falava, olhe, Enio não vai dar certo. Ele vai querer se impor. Foi ou não foi? Era tudo por causa das bandas anteriores dele, o Blush e o Sépia. Ele ficou com essa fama, mas depois a gente foi ver que Enio...
ENIO: Você está mentindo. Você não gostava era de mim. (risos) Aí, o Augusto também falou porque não cantar em português. Depois apareceu a primeira canção, "Antes que chegue o inverno", entre 2004 e 2005. Haymone se inspirou por algum motivo e continuou. Não tem mais volta. Não é mercadológico. A culpa toda é do clube da esquina. Agora todo mundo escuta e ponto final. (balbúrdia geral) O que foi que a gente veio escutando durante a viagem? Nada a ver diretamente conosco, apenas o último do Radiohead em pequenas doses… (risos)
MONE: Não vejo nada simples, é tudo muito mais complicado do que isso (risos).
 
B: Conte a versão de vocês sobre o que é Recife.

 
ENIO: Diga a verdade, pois se você não falar… (risos, apontando para Haymone).
MONE: Da nossa geração, de 2001 pra cá, as bandas estão se acabando, parando mesmo, ou se estagnando, sendo preguiçosas. Muitas bandas em Recife, desde o mangue beat, eram formadas no intuito de tocar para um grande público, porque o governo bancava shows, a prefeitura pagava um cachê bom, então, todos queriam ter uma banda. Era por dinheiro mesmo, o negócio era o cachê, pronto. E se expor na MTV, se fosse o caso, claro. Pronto, falei.
ENIO: Mas isso sempre foi uma faca de dois gumes, porque gerava notícia de uma cidade em profusão cultural, o que era uma verdade parcial...
MONE: Mas veja hoje, Recife não tem hoje uma casa de show, como aqui tem em Natal. Lá é tudo esporádico. Por outro lado, falta articulação por parte das bandas, e a gente também se inclui nisso, nos acomodamos demais. Não retiro nossa parcela de culpa. Também, não tem mais cachê... (em tom irônico, risos gerais).
MARCOS: Antes havia lugares, Pimenta Verde, Barramundo, um pequeno circuito que funcionava para as bandas ditas alternativas ou pequenas. Era um começo, mas hoje todo mundo já quer nascer grande...
MONE: Pra mim, ser independente é um estado, não um estágio como muitos pensam. Todo mundo quer virar darling da MTV, embora seja tudo momentâneo, passageiro...
 
B: Falem sobre o futuro do cd e seu primeiro cd. Sem título, capa semi- invisível, anti-comercial por excelência.
 
ENIO: Pra mim, é apenas uma mídia. A música continua primitiva como sempre foi, você escuta e gosta ou não. Nosso disco foi feito porque aquelas canções deveriam ser gravadas. Nosso cd não é um disco de trabalho, é um disco de memórias, é um diário de nossas vidas.
RAFAEL: É um clichê, mas o disco fechou um ciclo e abriu outro. Foi como registrar um passado que não existiria mais se não fosse gravado…
MARCOS: Olhe, as pessoas não querem mais saber do cd como produto. Elas escutam música no computador, não adianta querer mudar mais isso, é um fato. A gente nem se preocupa mais tanto assim com nosso cd. Se alguém perguntar, a gente fala, olhe, tem esse cd aqui, mas quase não tocamos mais nada dele hoje. Aliás, é muito estranho dizer isso (risos). Acho que vendemos uns cinco hoje depois do show…
ENIO: Ultimamente, essa é uma marca histórica… (risos)
MONE: Somos muito ruins na divulgação do cd como veículo de nossa música, mas pra mim é tudo igual. Cd, internet, MP3, vinil, é apenas um formato onde a música está.
AUGUSTO: Não tenho a menor noção pra onde a música vai. Eu só sei que tem um bocado de cd dos Mellotrons em formato físico ainda com a banda, disso eu sei. (risos)
 
B: O futuro dos Mellotrons, qual é?
 
AUGUSTO/ENIO (ao mesmo tempo): No improviso.
MONE: Improvisado sempre, incluindo aí as nossas próximas canções. Ou anti-canções, como queiram.
ENIO: O sintetizador será usado de agora em diante. Eu imagino que o rock mal feito por nós deve continuar por aí...
RAFAEL: Mal feito e mal tocado, não esqueça (risos).
 
B: Clássica pergunta. Qual o disco que, se vocês pudessem, cada um daria de presente a todo mundo?
 
ENIO: Ih… (depois de pensar muito) Pornography, The Cure. Pet sounds, Beach Boys. E Mira breve, de Edu Lobo (risos). É sério...
MARCOS: Disintegration, The Cure. E uma coletânea do Cassiano chamada Coleção (mais risos). Ei, é sério também.
RAFAEL: Clube da esquina 1. Também voto no Pet sounds.
MONE: Clube da esquina, o 1 e o 2. Abbey road, Beatles.
AUGUSTO: Urubu, de Tom Jobim. A storm in heaven, do The Verve.

Entrevista originalmente publicada no fanzine Barulhoscópio nº07 - Natal/2008

 

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