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O GALO DO MEU IRMÃO FUGIU DA RAIA | O GALO DO MEU IRMÃO FUGIU DA RAIA |
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| Escrito por J. Lacoli | |
| 12-Jun-2008 | |
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Quando eu era menino, lá em Ituberá, no litoral da Bahia, acompanhava o meu irmão mais velho, cujo apelido familiar é até hoje Noguchi. Eu deveria ter onze anos e ele beirava os quinze anos de idade. Estávamos sempre juntos, ele o meu líder e protetor, corajoso, não tinha medo de cara feia. A cidade era tranqüila, não tinha mais do que quatro mil habitantes. Apesar de calçada, com energia elétrica e saneada, conservava os hábitos antigos, tradicionais, as crianças freqüentavam o curso primário pela manhã, ficando a tarde livre para a prática do futebol, as peladas aconteciam com bolas de meias nos jardins que enfeitavam as ruas. Havia dois ou três automóveis na cidade e alguns caminhões que transportavam os sacos de cacau para o porto, atividade econômica principal do município, aliada a extração do dendê e piaçava. Era também tradição na cidade a atividade religiosa, isto é assistir as missas pela manhã e à noite, o padre, o prefeito e o juiz ditavam as regras da boa conduta da população. A natureza era pródiga, as matas exuberantes, as cachoeiras banhavam as encostas, atravessando a cidade até o braço do mar, onde não dispensávamos a natação naquelas águas frias. Era comum a população pobre pescar camarões e pitus nos leitos dos rios, tirando dali a sua subsistência. Era tempo de fartura e não de miséria como se vê atualmente, pois até os camarões e pitus desapareceram. Então como a nossa casa tinha um grande quintal, ali a mamãe criava galinhas e perus, não faltando os ovos e galinhas de capoeira para auxiliar o consumo doméstico da família. No meio da criação, o mano Noguchi resolveu criar um galo, um capão da melhor espécie. Era um galo xadrez, imponente, todo colorido, uma papada grande, um esporão que parecia uma espada de samurai, era com certeza o rei do terreiro. Era bonito vê-lo cruzando com as galinhas, às vezes rodopiando como um bom sambista, a crista abria-se como se fosse um girassol na primavera. O mano Noguchi e eu vibrávamos com essas estripulias galináceas e ele como dono do galo, me chamava para acompanhá-lo, levando o galo a tiracolo, ele o grande o proprietário e técnico e eu pequeno auxiliar e torcedor solidário. Então à tarde lá íamos pelas ruas ajardinadas, onde os moradores criavam as galinhas à solta, não havia qualquer proibição pelo código de postura municipal. Noguchi escolhia os adversários nos terreiros, se aproximava e lançava o seu capão para a briga. Vibrava quando o galo escorraçava os adversários desavisados, amedrontado pelo gigantismo do capão de quase quatro quilos. Meu irmão estava cheio de orgulho, não entendia do riscado, era um incauto amador, entusiasmado com as brigas do seu galo xadrez, apenas um bonitão, um reprodutor de penas coloridas. Como diz o ditado popular: "a araruta tem seu dia de mingau" e, infelizmente a imprudência e inexperiência do mano, levou-o a perder a cabeça em defesa do seu pupilo. É que naquele final de tarde sombria e me convidou a acompanhá-lo e alegou que o seu galo daria uma surra no galo do seu João, que dominava os terreiros da Rua da Praia. E lá me vou contagiado pelo seu entusiasmo de vencedor, quando, antes da briga, percebi que o galo do seu João era de raça, galo de briga. Era bem menor, talvez pesando a metade do galo de meu irmão, tinha poucas penas, os olhos verdes, pescoço liso, comprido, esporão grande, musculoso, desafiador. Percebi logo que não era um galo qualquer, o bicho era de briga, malvado, experiente no combate. Era um profissional e o do meu irmão um galo de enfeite. - E Noguchi virou-se para mim, e disse: Hoje é o dia da glória, meu irmão, meu galo vai dar uma surra nesse galinho safado. - E eu lhe adverti: Cuidado, Noguchi, esse galo é diferente, é de briga, é de raça. - Qual nada, respondeu ele, olhando com descrédito para mim. Você vai ver agora mesmo e lançou o galo contra do galo do senhor João. O galo xadrez do meu irmão baixou o pescoço, abriram-se as penas como se fosse um cata-vento multicor, esperando o ataque do galinho de raça. Não deu outra, o galo do seu João segurou com o bico a papada do galo do meu irmão e deu uma cipoada de lascar. Apenas uma cacetada, nada mais. O galo de Noguchi fugiu da raia, ele o segurou nos braços, o galinho de briga veio ciscar aos seus pés querendo mais briga. Noguchi examinou o seu galo e constatou uma abertura no peito de mais de dois centímetros provocado pelo esporão do galo do seu João. Então o mano perdeu a cabeça: Abaixou-se pegou um pedaço de pau e correu atrás do galo de raça que fugia dele em disparada e ele gritava: Galo filho da puta, vou lhe matar, vou lhe matar..... E eu preocupado com a sua agressão, queria sorrir sem poder, gritando para ele: Noguchi você está doido, deixe o galo do seu João, até ele atendeu, o galo de raça ficou observando de longe, de peito erguido, a decepção do galo do meu irmão. Voltamos tristes para casa, olhamos para trás e ouvimos o canto do galo vencedor, ciscando de alegria entonação era possível entender o seu desabafo: - Noguchi, brigar comigo é covardia, solte esse galo enfeitado que quero dar-lhe mais porrada pois você é não é do ramo. Uma grande lição, que me dá alegrias e saudade. »
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