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CONTROLE - A HISTÓRIA DE IAN CURTIS PDF Imprimir E-mail
Escrito por Olga Costa   
19-Mai-2008
ian_curtis.jpgA primeira coisa que ouvi a respeito dele foi que tinha se enforcado com um lençol preto. Em meados dos anos 80 caminhava pelas ruas de Brasília quando fiquei paralisada apontando para a vitrine de uma livraria, enquanto meu amigo Rosualdo não entendia o que estava acontecendo comigo – era uma edição portuguesa com as letras do Ian Curtis /Joy Division. Pronto, o estrago estava feito – Ian tinha morrido, mas virou de ponta cabeça o mundo de uma ouvinte incauta... Controle – A História de Ian Curtis, dirigido por Anton Corbijn.

Vivia num mundo próprio. Um mundo alheio a realidade: "A existência... Bem... O que importa? Eu existo da melhor forma possível. O passado, agora, faz parte do meu futuro. O presente está fora de controle."
Um mundo onde existia poemas de William Burroughs, J. G. Ballard, William Wordworth e músicas de David Bowie, Lou Reed, Iggy Pop.


Ian Kevin Curtis, nasceu no dia 15 de julho de 1956, e ontem fez 28 anos que se enforcou aos 23 anos na mesma cidade em que cresceu: Macclesfield, ao norte de Manchester, Inglaterra.
Curtis viu toda sua vida diante de seus olhos e fugiu dela: o cartaz na parede do escritório onde trabalhava dizia: "let us point you in the right direction and help you to find the right job (deixe-nos mostrar a direção certa e ajudá-lo a encontrar o trabalho certo) e ele foi na direção contrária. Fugiu da própria vida. Fugiu dele mesmo. Por que tinha sido escolhido para viver aquilo?


Encontrou na música a sua melhor forma de expressão, a sua grande paixão. Não sabia ele que era a maneira de 'matá-lo' ainda mais rápido. "Quando estou lá em cima, cantando, eles não entendem o quanto me doou e quanto isso me afeta."
Não se enganem. Ian Curtis nasceu para morrer cedo. Por quê? De alguma forma ele sabia que a sua própria trajetória seria curta. Não entendia muito bem, mas sabia. Talvez por isso a sua doença e perturbação existencial tornaram-se um fardo ainda maior do que em qualquer outro ser humano com uma capacidade artística aguçada. Quem sabe?


As letras cantadas no Joy Division tinham o peso da dor de poetas que morreram cedo de alguma doença incurável. Ian sabia que a sua doença – no caso a epilepsia – não iria derrubá-lo.


Fale-me sobre Macclesfield - "É um lugar cinzento e triste. Passei a vida toda inteira querendo fugir de lá".
"Mother, I tried, please believe me/ I´m doing the best that I can/ I´m ashamed of the things/ I´ve been put through/ I´m ashamed of the person Ian – ops I am" – versos de "Isolation".


Através da visão de sua filha recém-nascida, Ian se mostrava atrás de barras, numa prisão, trapped, sem saída. Não sabia o que fazer e mais uma vez, fugiu.


"Agora eles querem mais. Eles esperam que eu dê mais. E eu não sei se posso. É como se isso não estivesse acontecendo comigo, mas com alguém que finge ser eu, alguém vestindo a minha pele... Eu não sei o que fazer..."


Na parede perto da porta de acesso ao palco, um cartaz com nome de Peter Pan impresso: Ian se recusava a ver seu mundo externo mudar, crescer, torna-se adulto. Para ele tudo estava ruindo, enquanto no mundo real tudo estava acontecendo – fama e turnê norte-americana à vista.


"Fico numa luta permanente entre a minha verdade e a verdade distorcida vista pelos olhos dos outros, que não tem coração e não sabem distinguir uma da outra."


Era para ele a chegada do "Apocalipse Now" – um dos seus filmes favoritos – junto com A Noviça Rebelde (originalmente The Sound of Music – nome que Ian deu para uma de suas letras), onde o personagem de Marlon Brando lia parte do poema The Hollow Men de T. S. Eliot.


Era a luta final de Ian entre o coração e a consciência de que nada estava sob o seu controle – "She´s Lost Control" abordava sobre a  própria incapacidade de lidar com a doença e com a sua inquietude depressiva do que qualquer outra referência mais óbvia a sua vida pessoal.


Ian se despediu do mundo e deixou cravado em seu túmulo a frase mais contundente e devastadora do rock: "Love Will Tear Us Apart"... Mais uma vez.

» 6 Comentarios
1"Eterno Ian..." de Wilame AC em 19 de maio de 2008 12:05
Isolado em seu mundo, mas eterno no nosso.  
Ian Curtis que até hoje é referência para bandas, seja nas letras, músicas e porque não dizer personalidade, deixou sua marca registrada no mundo artístico. 
 
Valeu Olga por escrever sobre este filme que aborda a vida deste fantástico artista.  
 
até breve,  
 
Wilame AC
2Comentario de Quéroul em 19 de maio de 2008 12:17
o filme entra no circuito em SP a partir do dia 22, quinta-feira. 
qualquer outra info eu mando por aqui. eu li na revista! :) 
 
beijo
3Comentario de Marcelo em 19 de maio de 2008 12:36
Parecia que ele sabia que ia morrer, por isso desejou viver tudo muito rápido, um James Dean dos anos 80. É um filme muito bonito, extremamente competente, o diretor brinca com os espectadores que sabem da história da banda. Lembro ter saído destroçado da sessão de Control no cinema, na última Mostra..
4Comentario de Olga em 20 de maio de 2008 00:08
Quéroul, obrigada pela informação!:) 
Wilame, não são 28 dias, nem 28 meses... nem tinha idéia de toda a força que ele produzia ou tinha medo dela... Acho que eu também teria! 
Marcelo, eu lembro que você não me disse nada sobre o filme!:) Thanx for the comment e pelo documentário do Joy!
5Comentario de Julie em 21 de maio de 2008 09:55
Olga, seus textos são sempre bonitos e cheios de sensibilidade... mas esse ficou todo sentimento :) 
Como comentei com você, comecei a ver o filme, que parece ser carregado de sentimentos também.  
Consigo perceber que o Ian viveu rápido, mas viveu muito e sentiu muito, mesmo tendo abandonado tudo aos 23 anos! 
Beijo.
6"ele nao fazia a diferença" de marco em 16 de novembro de 2008 11:34
ele era diferente!!!nao se deve considerar quanto tempo ele viveu , mas a intensidade de como viveu!eu ja nao tenho os mesmos vinte e poucos anos de quando ouvi o joy division pela primeira vez nos distantes anos 80 , mas o sentimento e sempre o mesmo quando ouço atmosphere ou decades,talvez eu mesmo carregue um pouco do sentimento que habitava em ian.
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