A primeira coisa que ouvi a respeito dele foi que tinha se enforcado com um
lençol preto. Em meados dos anos 80 caminhava pelas ruas de Brasília quando
fiquei paralisada apontando para a vitrine de uma livraria, enquanto meu amigo
Rosualdo não entendia o que estava acontecendo comigo – era uma edição
portuguesa com as letras do Ian Curtis /Joy Division. Pronto, o estrago estava
feito – Ian tinha morrido, mas virou de ponta cabeça o mundo de uma ouvinte
incauta... Controle – A História de Ian Curtis, dirigido por Anton Corbijn.
Vivia num
mundo próprio. Um mundo alheio a realidade: "A existência... Bem... O que
importa? Eu existo da melhor forma possível. O passado, agora, faz parte do meu
futuro. O presente está fora de controle."
Um mundo onde existia poemas de William Burroughs, J. G. Ballard, William
Wordworth e músicas de David Bowie, Lou Reed, Iggy Pop.
Ian Kevin Curtis, nasceu no dia 15 de julho de 1956, e ontem fez 28 anos que se
enforcou aos 23 anos na mesma cidade em que cresceu: Macclesfield, ao norte de
Manchester, Inglaterra.
Curtis viu toda sua vida diante de seus olhos e fugiu dela: o cartaz na parede
do escritório onde trabalhava dizia: "let us point you in the right
direction and help you to find the right job (deixe-nos mostrar a direção certa
e ajudá-lo a encontrar o trabalho certo) e ele foi na direção contrária. Fugiu
da própria vida. Fugiu dele mesmo. Por que tinha sido escolhido para viver
aquilo?
Encontrou na música a sua melhor forma de expressão, a sua grande paixão. Não
sabia ele que era a maneira de 'matá-lo' ainda mais rápido. "Quando estou
lá em cima, cantando, eles não entendem o quanto me doou e quanto isso me
afeta."
Não se enganem. Ian Curtis nasceu para morrer cedo. Por quê? De alguma
forma ele sabia que a sua própria trajetória seria curta. Não entendia muito
bem, mas sabia. Talvez por isso a sua doença e perturbação existencial
tornaram-se um fardo ainda maior do que em qualquer outro ser humano com uma
capacidade artística aguçada. Quem sabe?
As letras cantadas no Joy Division tinham o peso da dor de poetas que morreram
cedo de alguma doença incurável. Ian sabia que a sua doença – no caso a
epilepsia – não iria derrubá-lo.
Fale-me sobre Macclesfield - "É um lugar cinzento e triste. Passei a vida
toda inteira querendo fugir de lá".
"Mother, I tried, please believe me/ I´m doing the best that I can/
I´m ashamed of the things/ I´ve been put through/ I´m ashamed of the person Ian
– ops I am" – versos de "Isolation".
Através da visão de sua filha recém-nascida, Ian se mostrava atrás de barras,
numa prisão, trapped, sem saída. Não sabia o que fazer e mais uma vez, fugiu.
"Agora eles querem mais. Eles esperam que eu dê mais. E eu não sei se
posso. É como se isso não estivesse acontecendo comigo, mas com alguém que
finge ser eu, alguém vestindo a minha pele... Eu não sei o que fazer..."
Na parede perto da porta de acesso ao palco, um cartaz com nome de Peter Pan
impresso: Ian se recusava a ver seu mundo externo mudar, crescer, torna-se adulto.
Para ele tudo estava ruindo, enquanto no mundo real tudo estava acontecendo –
fama e turnê norte-americana à vista.
"Fico numa luta permanente entre a minha verdade e a verdade distorcida
vista pelos olhos dos outros, que não tem coração e não sabem distinguir uma da
outra."
Era para ele a chegada do "Apocalipse Now" – um dos seus filmes
favoritos – junto com A Noviça Rebelde (originalmente The Sound of Music – nome
que Ian deu para uma de suas letras), onde o personagem de Marlon Brando lia
parte do poema The Hollow Men de T. S. Eliot.
Era a luta final de Ian entre o coração e a consciência de que nada estava sob
o seu controle – "She´s Lost Control" abordava sobre a própria
incapacidade de lidar com a doença e com a sua inquietude depressiva do que
qualquer outra referência mais óbvia a sua vida pessoal.
Ian se despediu do mundo e deixou cravado em seu túmulo a frase mais
contundente e devastadora do rock: "Love Will Tear Us Apart"... Mais
uma vez.
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6 Comentarios
1"Eterno Ian..." Isolado em seu mundo, mas eterno no nosso. Ian Curtis que até hoje é referência para bandas, seja nas letras, músicas e porque não dizer personalidade, deixou sua marca registrada no mundo artístico. Valeu Olga por escrever sobre este filme que aborda a vida deste fantástico artista. até breve, Wilame AC
2Comentario o filme entra no circuito em SP a partir do dia 22, quinta-feira. qualquer outra info eu mando por aqui. eu li na revista! :) beijo
3Comentario Parecia que ele sabia que ia morrer, por isso desejou viver tudo muito rápido, um James Dean dos anos 80. É um filme muito bonito, extremamente competente, o diretor brinca com os espectadores que sabem da história da banda. Lembro ter saído destroçado da sessão de Control no cinema, na última Mostra..
4Comentario Quéroul, obrigada pela informação!:) Wilame, não são 28 dias, nem 28 meses... nem tinha idéia de toda a força que ele produzia ou tinha medo dela... Acho que eu também teria! Marcelo, eu lembro que você não me disse nada sobre o filme!:) Thanx for the comment e pelo documentário do Joy!
5Comentario Olga, seus textos são sempre bonitos e cheios de sensibilidade... mas esse ficou todo sentimento :) Como comentei com você, comecei a ver o filme, que parece ser carregado de sentimentos também. Consigo perceber que o Ian viveu rápido, mas viveu muito e sentiu muito, mesmo tendo abandonado tudo aos 23 anos! Beijo.
6"ele nao fazia a diferença" ele era diferente!!!nao se deve considerar quanto tempo ele viveu , mas a intensidade de como viveu!eu ja nao tenho os mesmos vinte e poucos anos de quando ouvi o joy division pela primeira vez nos distantes anos 80 , mas o sentimento e sempre o mesmo quando ouço atmosphere ou decades,talvez eu mesmo carregue um pouco do sentimento que habitava em ian.
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