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A Cambalhota de Teles PDF Imprimir E-mail
Escrito por Jesuino André   
14-Mai-2008

teles-01.jpgO cantor e compositor segipano Henrique Teles é um dos grandes nomes da música pop nordestina comtemporânea. Com a sua banda Maria Scombona vem desde os anos 90 fazendo bons sons e recentemente lançou seu segundo disco "Mais de um nós" (resenhado aqui no site) com um padrão de qualidade invejável. Sempre simpático e bom conversador, fizemos uma exclusiva onde nos fala sobre música e um pouco da sua vida. Recomendável uma audição atenta dos dois discos do Maria Sombona!

Seu pai Antonio Teles foi um famoso artista sergipano que é homenageado em espaço público da cidade de Aracaju. Ele exerceu de uma forma direta no seu interesse musical?

Veja, normalmente tenho muita dificuldade de dimensionar, quantificar, qualificar influências, mas uma pessoa que revive - meu pai é falecido - a cada audição ou referência a grandes compositores e ao cancioneiro popular brasileiro é porque tem uma valiosa contribuição na minha existência musical. Ele pouco me ensinou na música; apenas me permitiu fazer grandes descobertas, por me servir um cardápio musical de altíssima qualidade, com sua interpretação de essência - alma - sem igual.


O que é que a música significa pra voce? Porque fazer música?
Rsrsrs... Não sei. Se eu parar para racionalizar, talvez lhe dê boas respostas, são tantas boas razões pra se fazer música! Nem sei se a música tem significado pra mim, também... Todas coisas são feitas de música; eu sou feito completamente de música... Não sei pensar essas coisas, só sinto.
 
Um fato curioso é saber que voce gostava de heavy metal e tocava numa banda de som pesado. Conta sobre isso aí.
Kkkkkkk.... raning, iscramblin, flain... tiroriroriroriroron... ran, live to flai, flai to live, du ou dai... kkkkk... Muito gostoso lembrar... Eu com meu baixo Jennifer de machado, Sérgio Cabeção na bateria e Beto na guitarra tocando Iron. Eu era uma desgraaaaça. Mas foi o princípio de tudo, dou muito valor a isto, continuo curtindo várias bandas: Black Sabbath, Judas, Dio, Deep Purple, AC/DC. O rock tá na nossa alma, não tem jeito. É uma das boas formas de ver e lidar com o mundo... E quando você vai perceber a raiz de tudo está no blues, nos negros, na África; tem essência.
 
teles-02.jpgSua geração vem dos anos 80, voce poderia nos contar sobre o rock e a música pop em Aracaju e no estado? Lembro de bandas interessantes dos ano 90 como Miller Babes, Lacertae, Cambodja, o começo da Snooze, a lenda Karne Krua, entre outras...
Anos 80? E é? Vou tentar me esquivar de ser enquadrado... rsrsrs... Gostaria muito de simplesmente fazer música e pronto. Seria ótimo ser atemporal e não ser anacrônico. Gostaria de falar para mais de uma geração e ser entendido. É querer muito, não é?! Mas eu quero. A Karne às vezes me dá impressão de estar na estrada desde os anos 50, gostaria de ter a vitalidade e a firmeza de princípios de Sílvio. Ele é um cara a ser reverenciado - sempre - quando se falar na cena aracajuana.
 
Cerca de dois, três anos atrás sua banda Maria Scombona projetou/participou de eventos de cunho social - tendo a música como elemento principal - com os projetos Circuito Escolar e o Mundo Rock Interior. O que motivou voce e sua banda a fazer isso? Quais os resultados que obtiveram com essa experiência?
Esse assunto dá pra escrever um livro - quem sabe, daqui a um tempo?! Hoje nem faço balanço ainda. Quero mais; quero continuar junto com a moçada que trabalha na Maria fazendo os projetos acontecerem, sem perder o hábito de sonhar com coisas bacanas para a música. São oficinas sobre música, sonorização e produção. Tenho mais 3 músicos sonhadores e realizadores do meu lado - os caras são simplesmente foda! - e temos várias empresas que acreditam que a gente pode unir sonho com realidade. Temos tentado não precisar esperar pelo Estado - mesmo contando com ele e acreditando na importância da sua atuação - e temos nos saído bem. Vamos continuar. A Maria Scombona sabe da importância desse público para o futuro da nossa cena e vai continuar apostando nos projetos de workshops e incentivo à consciência musical.
 
Todos nós sofremos influencias. Temos uma formação cultural e intelectual espelhado em alguém ou em algo. Voce poderia falar sobre isso e nos citar alguém ou algo que lhe influenciou como pessoa e como artista?
Luiz Gonzaga, John Lee Hooker, meu pai, Clemilda, (Alceu, Ednardo, Zé Ramalho), Vavá Machado e Marcolino, Trio Nordestino, Emboladores das feiras, BB King, AC/DC, a cultura do meu povo, nosso sotaque. Tudo, cada qual com seu pouquinho. Tem dois caras e duas obras que pra mim são marcos: Alceu Valença, disco Vivo, gravado no teatro Tereza Rachel em 1976 e Ednardo, disco Cauim, 1978. É uma idéia de alquimia universal. Não sei porque esse caminho foi sendo esquecido.
 
teles-03.jpg"Mais de um nós" é sem dúvida seu melhor trabalho até o momento e um dos melhores lançamentos do gênero do ano passado para cá. Gostaria que voce falasse do disco, da importância desse trabalho para voce e para a banda.
Muita gente falou que a gente tava fudido com a saída da gaita, que a gente não lançaria outro cd igual ao Grão, que a síndrome do segundo cd iria prevalecer... rsrsrs... nós fazemos música; juntamos gente; somos musicalmente honestos; não perdemos tempo em frente ao espelho e queremos sempre fazer mais. Os caras sabem que a nascente da nossa história é meu trabalho de composição, mas se arreganham e ocupam seus espaços no trabalho. Aí tudo toma força e coesão.


O disco é o amadurecimento musical da gente. Feito com quase as mesmas pessoas do primeiro cd, Grão. Buscamos continuar sendo a Maria Scombona, sem precisar copiar fórmulas do sucesso do primeiro cd. Aí as pessoas conseguem enxergar isto.

Fazer o cd foi muito prazeroso porque a banda tava praticamente acabando e voltamos a ensaiar eu, Robson e Rafael apenas - voz, baixo e bateria - e conseguimos experimentar, escolher caminhos, agregar outros músicos e finalizar da melhor maneira possível. Pra não dizer que não falei de sexo, das preliminares ao cafezinho, vivemos tudo com muita serenidade, diálogo, entrega e prazer. E já estamos rijos para a próxima.
 
Voce tem alguma ambição ou sonho nessa vida?
Continuar acreditando no presente. Acho que isso é que dá sentido aos sonhos e às lembranças; é onde tudo se encontra.
 
Outra coisa, que estória é essa de surfar com longboard?! Qual sua relação com o esporte?
Deixe eu lhe falar umas coisas: este outono deixei de surfar dias que se contam nos dedos de uma mão. Eu e meu parceiro Beto Coco. Foi madeira. Pra bem dizer, adoro movimento. Sou inquieto, herança de minha mãe. Surfo, pedalo, jogo frescobol, corro, pulo cerca, danço forró - e danço pra lhe deixar de boca aberta. Sou bom nisso - gosto de mergulho e pesca - coisas que nunca mais fiz - gosto de pescar siri, tirar caranguejo no buraco, nadar na maré, fazer trilha a pé... Ah, gosto de moto e de velocidade (muita!), mas não recomendo a morte pra ninguém. Faço isto, faço bem à minha principal ferramenta, meu corpo - onde se localiza, inclusive, minha cabeça. Não paro pra não ficar só pensando, pra não ficar doido... eu penso muito. Penso, penso, penso o tempo inteiro. Acho que é uma defesa. O tempo que sobra eu componho.

Então o longboard é só um pedacinho - maravilhoso - da minha vida.
 
Deixe uma mensagem para os novos artistas.
Metam as caras. Procurem entender o que vocês fazem e sentir a importância disto pra suas vidas e pra as pessoas que apreciarão sua arte. Esforcem-se para reconhecerem quando errarem, buscando acertar mais. Contem com a gente no que nos for possível: www.mariascombona.com.br.


» 3 Comentarios
1"Ah, Henrique Teles!!" de Elma em 14 de maio de 2008 12:27
Eu sou muito suspeita pra fazer qualquer comentário de alguém que é o vocalista da banda que eu produzo, mas Henrique é merecedor de todos os elogios que falam sobre ele: honesto, perseverante, humilde, carinhoso, inteligente e um ótimo observador do mundo ao seu redor. 
Agradeço sempre por ter ao meu lado todos os scombônicos (Henrique Teles, Rafael Jr, Robson e Saulinho Ferreira). Previlégio!!! 
Quanto a Jesuíno, como sempre, um bom trabalho. Uma boa entrevista...um bom entrevistado!
2"ops!" de Elma em 14 de maio de 2008 12:28
corrigindo: privilégio
3"Comunicador Cultural" de Carla Rabelo em 15 de maio de 2008 10:06
Henrique é um sábio, pois sabe dividir seus conhecimentos, seus pensamentos e seus projetos. É receptivo e acredita que alguém sempre tem algo para ensinar e aprender. Um “simpático-conversador”, sim, um bom comunicador cultural e todos ao seu lado também o são. Suas experiências e experimentos sócio-culturais demonstram a possibilidade de trazer o popular ao seu lugar de fato, público, em debate e transformação. E não somente dentro das cabeças intelectualóides. Pensemos e compartilhemos! Um beijo saudoso ao Henrique e aos queridos da Scombona. Com carinho. Carla Rabelo.
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