Aproveitando que estamos comemorando o Dia dos Artistas Plásticos (8 de maio), dia esse, inclusive, que
é marcado pela abertura de mais um Salão Municipal de Artes Plásticas,
resgato aqui uma entrevista que fiz, por email, com Fred Svendsen, em
outubro de 2007.
A
entrevista nunca foi publica neste formato ping pong. Á época foi
lançada como matéria como foco em uma exposição que o artista estava
participando. Então, o que será lido a seguir, é inédito! Antes de
qualquer coisa, para os desavisados e não acostumados ao "mundo" das
artes plásticas paraibanas, farei uma breve (breve mesmo) apresentação
deste artista entrevistado.
Fred é um multimídia. Pintor, desenhista, gravador, escultor e designer, ele iniciou
sua carreira como ilustrador do suplemento literário Correio das Artes.
Daí pra frente seguiu pelo jornalismo paraibano e brasileiro, estando
presente em importantes suplementos – isso significa aqueles que
investiam nas artes gráficas feitas pelos artistas plásticos, não só
como Fred, mas também como Diógenes Chaves e Pedro Osmar – só para
constar!
Então
Fred passou pelo Diário da Borborema - Campina Grande, Oficina
Literária e Aguardente Rio de Janeiro, revista Íris-Foto Cine Som e
Tribuna da Imprensa do Rio de Janeiro, entre outros tantos.
Polêmico,
vocês saberão porque ao ler a entrevista, Svendsen é daqueles artistas
paraibanos que sempre está provocando algum tido de reflexão não apenas
em torno de cânones estéticos, mas também de tabu mercadológicos e
conceituais da arte contemporânea.
CALINA BISPO. Você
me disse ao telefone que as artes visuais na Paraíba estão passando
pelo seu pior momento. O que leva você a fazer essa afirmação?
FRED SVENDSEN.
As artes plásticas da Paraíba sempre foram acostumadas a ser, senão a
maior, mas uma das áreas das artes mais respeitadas da Paraíba, e mais
representativa. Só que de uns 8 anos para cá, esta relegada a último
plano.
CB. O que caracteriza as artes visuais hoje na Paraíba?
FS.
Nós somos um dos Estados mais respeitado no país, em termos de artes
plásticas. Desde os anos 60, as artes plásticas da Paraíba são
conhecidas nacionalmente, como uma das melhores artes do Brasil. Porém,
nós estamos na pior fase de nossa história, mas a culpa é nossa mesmo,
porque cada artista se afastou um do outro, pelos egos não poderem
conviver.
CB. A reflexão gira em torno de que agora?
FS.
Eu acho que gira em torno do artista mais importante do Brasil, que é e
sempre será nosso PEDRO AMÉRICO daqui da cidade de Areia.
CB. Então, quais reflexões você propõe?
FS.
Olha temos uma universidade, que não nos serve, no mês passado
(setembro/2007) fiz uma palestra na sala de um professor amigo meu e os
alunos ficaram tão impressionados com minha presença, de tanto ouvir
falar em mim e no meu trabalho, que no final da palestra todos me
pediram autógrafo, como se eu fosse Roberto Carlos, isto só acontece
porque a UFPB está muito distante de nós.
CB. O meio influencia os artistas atuais?
FS. Sim, mas nós não temos meio, nós temos é um amontoado de artistas trabalhando individualmente.
CB. Em algumas entrevistas que li sua, você sempre acaba levantando alguma polêmica.
FS.
Apenas não gostaria, de ver trabalhos de artistas paraibanos sendo
analisados sem uma prévia permissão, e eu estou vendo a hora chegar no
meu, e isto não permito, pois quem está fazendo isto, não tem condições
para tal.
CB. Qual o ponto nevrálgico das artes paraibanas hoje?
FS. É a disparidade dos artistas, é fazer com que a arte da Paraíba desapareça.
CB.
Cursos de história da arte e academia formam público e artista, ou são
apenas transmissores de idéias recorrentes e esgotadas?
FS.
Recorrente, e esgotadas, é isso mesmo! As pessoas que estão preparando
estes jovens em sua maioria foram formadas neste mesmo sistema, falho.
CB. O que já se esgotou na arte paraibana e que não precisa ser recorrente?
FS. O
que esgotou foi a idéia de que a Paraíba, era um Estado fora do Brasil
e do mundo. Hoje se sabe que aqui se tem acesso a tudo do mundo, e a
Paraíba hoje, é mais conectada, com Londres e Berlim do que com o sul
maravilha. É muito comum hoje o paraibano passar pelo sul voando, para
Paris, Berlim, E.U.A, Portugal, enfim, para toda Europa.
CB. É possível encontrar traços da sociedade na expressão dos artistas visuais?
FS. Nós
nunca tivemos uma arte nordestina, sempre fizemos uma arte cosmopolita,
e contemporânea, portanto nunca identifiquei traços da sociedade local
no nosso trabalho.
CB. Porque tanta variação terminológica para identificar um artista (plásticos, visuais, gráficos...contemporâneos) ?
FS. Artista,
é só um, o que ele desenvolve é que acaba caindo nas terminologias dos
que não sabem fazer nada. Estas pessoas foram inventadas para também
inventar termos novos.
CB.
Na entrevista de Sérgio Lucena à Dyógenes Chaves no Correio das Artes
de setembro, Lucena afirma que o artista contemporâneo se encontra em
pobre condição ao viver em função do desejo de ser útil e engajado no
sistema produtivo, além do desejoso de ser consumido. Você concorda com essa conclusão negativa do artista atual?
FS. Eu
não vejo como uma conclusão negativa e sim romântica. Nós não podemos
mais neste mundo de consumismo, ainda estar pensando romanticamente.
Todo artista moderno hoje quando termina seu trabalho só pensa numa
coisa: transformar sua arte e seu trabalho em dinheiro para viver, e
manter sua obra.
CB. O artista e sua obra devem ser engajados?
FS. Hoje não, a política esculhambou com tudo, hoje o artista engajado, se não tiver cuidado, vira panfletário.
CB. A arte engajada é necessária?
FS. Não. O que a arte engajada estaria defendendo, neste mundo de lama?
CB.
Como se dá, hoje, na Paraíba e no Brasil, esta relação entre as artes
visuais e o público consumidor – o colecionador (ou a ausência dele)?
FS. Nós
temos a melhor relação possível com o público, consumidor e
colecionador. Basta ver que as galerias da cidade não criaram um
público, mas, os artistas sim. Dependendo do artista, a mostra dele
leva uma multidão na abertura como a minha, por exemplo.
CB.
A relação Instituição – Acervo – Artista. Que mecanismos são
encontrados, ou não, nessa relação institucional e mercadológica?
FS. Olha
não é de hoje que sabemos que o Estado é riquíssimo em acervo dos seus
artistas, o que não temos é lugar para abrigar este bem material e
artístico.
CB.
Mecanismos e características especificas à parte, você acredita que há
uma ausência de movimentos expressivos e genuinamente brasileiros nas
artes plásticas de hoje?
FS. Não.
Hoje o Brasil está cheio de movimentos, as artes plásticas foi quem se
afastou da mídia, por ser elitista, e se achar assim, e talvez por este
motivo você está cansado de ver as televisões abertas do País, dá 2
horas de programa para uma mulher fazer um bolo, e as artes plásticas
não tem nem 30 segundos em mais nenhum veículo de comunicação nacional.
CB. Vanguarda brasileira?
FS. A
vanguarda brasileira hoje é confundida com arte contemporânea, que
também os que cantam e decantam este termo não sabe nem o que é que
esta falando.
CB.
De que forma os artistas contemporâneos estão se relacionando com sua
obra? (contemporâneos no sentido daqueles que estão em produção
constante e não como uma característica de uma expressão alusiva ao
movimento proposto por Duchamp).
FS. Não se pode dissociar o artista nunca de sua obra, ele sempre será intrínseco a ela.
O que é arte conceitual? Toda arte traz um conceito, não pode existir sem o mesmo.
CB. Porque a arte conceitual é tão distante do público?
FS. Porque muitas vezes a arte conceitual não emociona ninguém, Quem emociona mais, uma obra de Goya, ou um Penico enferrujado?
CB. No contexto obra-público, a obra tem por obrigação, procurar se comunicar com o público?
FS. Não!
Não podemos tirar a capacidade das pessoa usar seu raciocínio para
interpretar uma obra de arte como ele quer e entende, cada um tem sua
leitura, e a minha leitura não interessa a ninguém, e a minha será
sempre diferente dos demais.
CB. É preciso que a obra se torne auto-sustentável do ponto de vista conceitual?
FS. Não, não, não! A
arte é feita sobre um conceito, mas se ela precisasse do conceito para
sobreviver, como ficaria todas as obras de arte que foram achadas nas
tumbas dos grandes Faraós? Tutankamon não tinha
consciência de que estava fazendo arte, mas sabia que estava fazendo um
trabalho duradouro, e como um trabalho duradouro, ela sabia que um dia
isto seria arte.
CB.
Quanto ao autor, ele é necessário apenas durante o processo de
produção? Será que depois de concluída a obra existe por si mesma?
FS. Toda
obra tem um papel a cumprir, quando o artista termina a obra, ele morre
para existir um produto, e aquele produto é comerciável como qualquer
produto, gosto muito quando chega uma pessoa para mim e me fala que
pegou um trabalho meu e vendeu para consertar a casa, ou o carro, é a prova que meu trabalho hoje é uma moeda.
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1 Comentario
1"Parbéns!!!!!!!!!!!!!" Fred, fiquei feliz por sua participação no ping pong, quero lhe parabenizar varias vezes, primeiro por sua entrevista inédita no formato (Ping Pong) como escreve Calina Bispo, depois por esta matéria estar aberta ao publico exatamente no dia dos Artistas Plásticos (8 de maio), quero parabenizá-lo também por várias colocações que merecem apoio. Finalizo com um grande abraço para Calina Bispo. Parabéns pelo lançamento do ping pong.
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