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Na época da minha infância morava na minha rua um menino franzino, alguns anos mais novo que eu, que se chamava João. Ele vivia correndo atrás de mim. Onde quer que eu estivesse lá estava João perguntando que eu iria fazer, como iria fazer e porque iria fazer, e não preciso dizer como isso me irritava. Não adiantava ser rude ou grosso com ele, ele sempre estava a me seguir.
João era o terceiro filho, e o único filho homem, de Dona Maria.O pai
de joão morrera de ataque cardíaco quando ele tinha 6 anos e no leito
de morte lhe deixou a missão de cuidar de sua mãe, Maria, e de suas
irmãs, pois ele era o único homem da casa. João não tinha referências
masculinas dentro de casa, por isso, as buscava na rua, e eu era uma
delas. João não tinha amigos, conheciam apenas alguns meninos que
zombavam e batiam nele. Numa dessas situações eu intervi e João foi
polpado, o que foi o suficiente para João me eleger como seu herói.
Eu tinha 17 anos naquela época e tinha muitos amigos e não
precisava de mais nenhum, principalmente se fosse como João, e por isso
não dava muita atenção para ele, mas, mesmo assim João continuava a me
seguir, onde quer que eu fosse sempre encontrava com ele sorrindo e
falando muito. Chegando as vezes até a ser inconveniente me
interropendo, e perguntando o que eu iria fazer mais tarde, quando eu
estava a abordar uma ou outra garota que me interessava, me fazendo
perder o compasso. Eu Também me aproveitava da situação pedindo a João
para comprar coisas para mim, ou pegar algo que tinha esquecido, e João
executava as minhas ordens como um Cabo ao seu Sargento.
Certo dia, peguei um briga feia com o meu pai por causa do meu
desempenho na escola. Ele não entendia como era importante para mim a
convivência com os meus amigos e a descoberta desse mundo novo que se
abria para mim cheio de oportunidades. Eu também não compreendia como
era importante, para a minha sobrevivência, nesse mundo novo, escutar o
que ele me dizia. Sai de casa batendo a porta, e com a sensação que
minha cabeça estava fervendo. Mal dei dois passos na rua e João me
alcançou, me perguntando onde eu iria e se ele poderia ir comigo. Num
acesso de fúria, eu gritei com João, disse que não queria ser amigo
dele, que nunca quis, que ele era esquisito e pedi para ele me deixar
em paz para sempre. João perguntou se eu estava brincando e eu empurrei
ele. João caiu... Com lagrimas nos olhos, segurando o choro, me encarou
como quem não estava a acreditar no que tinha acontecido, me mantive
irredutível. Ele saiu correndo em direção a sua casa e eu segui o meu
caminho, confesso que com um pouco de remorso, mas imaginando que seria
o melhor para mim.
Depois desse dia vi João poucas vezes, passando de cabeça
baixa para ir ou para voltar da escola, começou a passar a maior parte
do seu tempo em casa. As vezes passava me encarava rápido mas logo
baixava a cabeça e voltava ao seu caminho, ou em direção a escola ou em
direção a sua casa.
No ano seguinte, no dia em que eu completei 18 anos, soube da
notícia que João havia se matado. Descobrira um revolver escondido pelo
seu pai no quarto da sua mãe, para alguma "emergência", e tirou a
própria vida com um tiro na boca. A notícia me caiu com um peso de uma
tonelada em minha cabeça, e naquele ano não comemorei o meu
aniversário, e desde aquele dia todo ano no dia do meu aniversário
lembro de João.
Hoje, o dia que completo 70 anos, meus filhos conversando e
meus netos correndo pela minha casa, lembrei mais forte de João, talvez
pela proximidade da minha morte, e um remorso enorme me fez encher meus
olhos cansados de lágrimas e concluir que, a nossa consciência é o
nosso próprio purgatório.
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