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Nosso próprio purgatório PDF Imprimir E-mail
Escrito por Renato Ricardo de Abreu   
30-Abr-2008
    Na época da minha infância morava na minha rua um menino franzino, alguns anos mais novo que eu, que se chamava João. Ele vivia correndo atrás de mim. Onde quer que eu estivesse lá estava João perguntando que eu iria fazer, como iria fazer e porque iria fazer, e não preciso dizer como isso me irritava. Não adiantava ser rude ou grosso com ele, ele sempre estava a me seguir.

João era o terceiro filho, e o único filho homem, de Dona Maria.O pai de joão morrera de ataque cardíaco quando ele tinha 6 anos e no leito de morte lhe deixou a missão de cuidar de sua mãe, Maria, e de suas irmãs, pois ele era o único homem da casa. João não tinha referências masculinas dentro de casa, por isso, as buscava na rua, e eu era uma delas. João não tinha amigos, conheciam apenas alguns meninos que zombavam e batiam nele. Numa dessas situações eu intervi e João foi polpado, o que foi o suficiente para João me eleger como seu herói.


    Eu tinha 17 anos naquela época e tinha muitos amigos e não precisava de mais nenhum, principalmente se fosse como João, e por isso não dava muita atenção para ele, mas, mesmo assim João continuava a me seguir, onde quer que eu fosse sempre encontrava com ele sorrindo e falando muito. Chegando as vezes até a ser inconveniente me interropendo, e perguntando o que eu iria fazer mais tarde, quando eu estava a abordar uma ou outra garota que me interessava, me fazendo perder o compasso. Eu Também me aproveitava da situação pedindo a João para comprar coisas para mim, ou pegar algo que tinha esquecido, e João executava as minhas ordens como um Cabo ao seu Sargento.


    Certo dia, peguei um briga feia com o meu pai por causa do meu desempenho na escola. Ele não entendia como era importante para mim a convivência com os meus amigos e a descoberta desse mundo novo que se abria para mim cheio de oportunidades. Eu também não compreendia como era importante, para a minha sobrevivência, nesse mundo novo, escutar o que ele me dizia. Sai de casa batendo a porta, e com a sensação que minha cabeça estava fervendo. Mal dei dois passos na rua e João me alcançou, me perguntando onde eu iria e se ele poderia ir comigo. Num acesso de fúria, eu gritei com João, disse que não queria ser amigo dele, que nunca quis, que ele era esquisito e pedi para ele me deixar em paz para sempre. João perguntou se eu estava brincando e eu empurrei ele. João caiu... Com lagrimas nos olhos, segurando o choro, me encarou como quem não estava a acreditar no que tinha acontecido, me mantive irredutível. Ele saiu correndo em direção a sua casa e eu segui o meu caminho, confesso que com um pouco de remorso, mas imaginando que seria o melhor para mim.


    Depois desse dia vi João poucas vezes, passando de cabeça baixa para ir ou para voltar da escola, começou a passar a maior parte do seu tempo em casa. As vezes passava me encarava rápido mas logo baixava a cabeça e voltava ao seu caminho, ou em direção a escola ou em direção a sua casa.
    No ano seguinte, no dia em que eu completei 18 anos, soube da notícia que João havia se matado. Descobrira um revolver escondido pelo seu pai no quarto da sua mãe, para alguma "emergência", e tirou a própria vida com um tiro na boca. A notícia me caiu com um peso de uma tonelada em minha cabeça, e naquele ano não comemorei o meu aniversário, e desde aquele dia todo ano no dia do meu aniversário lembro de João.


    Hoje, o dia que completo 70 anos, meus filhos conversando e meus netos correndo pela minha casa, lembrei mais forte de João, talvez pela proximidade da minha morte, e um remorso enorme me fez encher meus olhos cansados de lágrimas e concluir que, a nossa consciência é o nosso próprio purgatório.

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