Robert Zimmerman começou a escrever o roteiro da sua vida a partir do momento que ouviu pela primeira vez a canção "Drifting Too Far from Shore" cantada pelo Bill Monroe, o pai do bluegrass (ver nota abaixo). A música o atingiu de tal forma que chegou a dizer, no documentário "No Direction Home" de Martin Scorsese: "o som do disco fez com eu me sentisse outra pessoa... Parecia que eu nem mesmo nasci com os pais certos, ou algo assim".
O diretor inglês Todd
Haynes não teve muito trabalho ao filmar a vida de Bob Dylan. Ele tinha
em suas mãos um roteiro praticamente pronto de uma vida fascinante,
cheia de contradições e musicalmente sem precedentes. O único empecilho
era o fato de Dylan nunca ter liberado nenhum projeto cinematográfico
envolvendo sua vida (na época do lançamento de Uma Garota Irresistível
- Factory Girl 2006, circulou uma notícia de que Dylan iria proibir as
exibições pelo fato de ter referência a sua pessoa, apesar de seu nome
não ser citado em nenhum momento).
Desde o ano de 2000, Todd Haynes passou a perseguir a idéia de filmar a
vida daquele que ouviu pela primeira vez ainda adolescente: "sempre
ouvi dizer que muita gente se envolve com a música do Bob Dylan para se
libertar ou para se encontrar. E eu estava num momento exatamente assim
- tinha desistido de Nova York e tinha acabado de mudar para Portland,
Oregon." A história se repetia - agora era o impacto da música de
Dylan, de volta, em Haynes.
Mesmo envolvido em outros projetos, durante todo esse tempo, nunca
deixou de pensar como viabilizar seu filme. Através do filho mais velho
e também diretor, Jesse Byron Dylan, Haynes conseguiu falar com o
produtor de Dylan, Jeff Rosen. Ouviu atentamente todas as dicas, evitou
os jargões usados com relação a importância do compositor e entregou o
roteiro sem nenhum expectativa. Depois de semanas, recebeu um
telefonema de Jeff dizendo que Dylan tinha aceitado liberar o roteiro
com uma inesperada condição: além de filme, I´m Not There (Não Estou Lá
- EUA 2007) também teria uma versão para teatro. Uma curiosidade: Cate
Blanchet foi a única que participou dos dois projetos.
Bob Dylan era adjetivado frequentemente como mutável e inconstante.
Haynes foi obrigado a optar por mostrar na tela, uma personalidade que,
mesmo desfragmentada, era composta por seis personas inventadas e/ou
vivenciadas pelo músico. A primeira delas era Woody Guthrie
interpretada pelo Marcus Carl Franklin (o único que realmente cantou e
tocou no filme). Segundo o cantor e compositor Mark Spoelstra: "Woody
era muito importante para nós dois. Acho que Bob queria ser mais como
Woody do que eu. Ele conseguiu adotar umas características teatrais
próprias. Na verdade, no primeiro encontro, ele de certo modo, estava
atuando. E aquilo era bom. Pode-se ir a qualquer lugar quando se é
outra pessoa." Mark faleceu em fevereiro de 2007 e foi um dos primeiros
que tocou com Dylan em Nova York. Para Bob Dylan, Woody Guthrie "foi um
radical, suas músicas tinham tendência radical" e era exatamente o que
Dylan queria cantar e incorporar naquela época. Dylan não entendia por
que para a maioria das pessoas aquelas "músicas soavam arcaicas, não
sei por que não soavam arcaicas para mim. Para mim, parecia que aquelas
canções aconteciam naquele momento". A música de Woody Guthrie era uma
lição de vida: "Pode-se ouvir suas músicas e realmente aprender a
viver." afirmava Dylan.

Cate Blanchet ficou com a missão (cumprida com maestria) de reviver o
rebelde Jude Quinn que, chamado de "cantor de protesto", revoltou-se
contra esse rótulo e metralhou sua platéia, fiel ao folk, com riffs de
guitarras elétricas. Era como se o próprio Dylan reafirma-se o que
disse certa vez: "Não sinto que tive um passado... E não poderia me
relacionar a nada diferente do que fazia na época. Não me importa o que
eu disse. Não me importa mesmo."
Jack Rollins foi o nome escolhido para o personagem de Christian Bale,
retratado apenas em fotos, capas de discos e apresentações de tv.
Haynes, em certo momento do filme, criou uma falsa expectativa de
revelação, quando numa cena a repórter anunciou: "hoje à noite
estaremos face a face com o verdadeiro Jack Rollins...". Bale é o único
ator que fez dois Dylans: o "trovador da consciência da música folk" e
o Pastor, mas na verdade, nem o trovador, nem o pastor estiveram lá.
Robbie Clark interpretado pelo ator Heath Ledger, que morreu no final
de janeiro desse ano, representou o lado cinematográfico que sempre
fascinou o compositor. Bob Dylan escreveu, dirigiu e atuou no final dos
anos 70 um filme chamado Renaldo e Clara; fez a trilha sonora e atuou,
também, em um filme de Sam Peckinpah, Pat Garrett e Billy the Kid.
Robbie Clark fez o papel de Jack Rollins no cinema.
Billy the Kid foi como Haynes escolheu chamar o personagem de Richard
Gere que representou o período de longo isolamento da vida pública,
logo após ao suposto acidente de moto.

Já Ben Whishaw representou Arthur Rimbaud, o Bob Dylan poeta, devorador
de livros, assim como o Dylan outsider, que se identificou com Bound to
Glory do Woody Guthrie, On the Road de Jack Kerouac, que aproximou
Allen Ginsberg e se sentiu íntimo de todos aqueles ´malucos´ que
gravitavam nas ruas de Greenwich Village. O Dylan que caiu na estrada e
recolheu para si tudo que precisava para se reciclar, constantemente.
Arthur Rimbaud é o personagem que pontua todo o filme. É ele que dita
"as sete regras para se viver no anonimato".
Ao escolher uma forma de mostrar a trajetória de Bob Dylan, Haynes
optou por um formato nada convencional. Além de desfracionar a persona
Dylan em seis personagens distintos, escolheu também refilmar trechos
completos dos documentários No Direction Home e Don´t Look Back (Martin
Scorsese e Donn Alan Pennebaker, respectivamente) que são vistos nos
personagens de Jude Quinn e Jack Rollins. Os seis personagens formaram
um amálgama denso que se interligaram de forma inusitada e muito
criativa. O bom humor sutil e sagaz de Haynes despontaram em momentos
inesperados como nas citações das músicas Just Like a Woman, Only a
Pawn in Their Game e no encontro de Dylan com os Beatles.

Na trilha sonora, Todd Haynes, escolheu músicas representativas e não
privilegiou os hits, como Blowin´ in the Wind, Lay, Lady, Lay e
Knockin´on Heaven´s Door (tocada no final do filme na subida dos
créditos, numa versão super melancólica de Antony & The Johnsons),
preferiu deixar boa parte das músicas que não são cantadas pelo próprio
autor, ao cargo da desconhecida banda de Tucson, Arizona chamada
Calexico, de quem é a versão de Going to Acapulco com Jim James do My
Morning Jacket nos vocais. A música compõe uma bonita homenagem ao The
Band, numa cena que é também, uma citação a turnê Rolling Thunder Revue
de 1975. O restante da trilha, lançada lá fora em CD duplo, tem ainda
John Doe (ex-baixista da banda X de Los Angeles) numa leitura fiel de
Pressing On e Jeff Tweedy do Wilco com Simple Twist of Fate.
Com "Não Estou Lá" Todd Haynes não só fechou o seu ciclo pessoal
iniciado na adolescência com a música de Bob Dylan, como também,
atingiu a maioridade como cineasta e chegou muito perto de revelar o
lado mais desconhecido do compositor americano.
NOTA:
BLUEGRASS - estilo primitivo americano que tem raízes nas músicas
tradicionais tocadas pelos imigrantes da Escócia, Irlanda e Inglaterra.
A principal característica está no fato de apenas um instrumento tocar
a melodia principal e os demais improvisarem. Outra curiosidade a
respeito do estilo: o não uso de instrumentos elétricos na execução das
músicas. Os instrumentos mais usados são violino, violão, bandolim,
banjo e baixo acústico. Bill Monroe é o criador do estilo que se
popularizou com sua banda batizada de "Bill Monroe and the Blue Grass
Boys".
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8 Comentarios
1"Quero ver" Quero ver este filme... Ainda ñ vi... Ñ vejo a hora de ver a atuação da Cate Blanchett...
2"Texto maravilhoso!" Eu já posso entrar para a tua lista de fãs?
3"Eu também não estou lá!" Eu já tinha lido alguns textos sobre o filme I'm not there, e vi o trailer umas 3 vezes... mas a forma apaixonada com que a minha doce e querida amiga Olga escreve e descreve certas particularidades, ainda ignoradas por mim, é fabuloso!! Parece até que posso ver os olhos dela brilhando enquanto digita o texto!! Pois é, no dia que a Olga tava terminando de redigir o tal artigo, a gente tinham arcado de sair e tomar umas cervejas e botar o papo em dia (não a vejo desde o dia que a recebi em meu apartamento, ainda lá em Porto Alegre, quando ela foi fazer uma entrevista com os Irmãos Rocha, etc). Bem, a saidazinha ficou pra depois. O teu texto, Olga, mereceu o adiamento. Ainda quero ter bagagem suficiente pra que você queira escrever um texto tão legal assim, falando das minhas musiquetas e tal... e só assim o título do meu comentário poderá ser: "Eu estou lá!" Bjo, querida!!
4"texto e trilha" Olga fala e escreve com propriedade. Essa trilha sonora do filme ficou um primor!
5"MUITO BOA DE TEXTO" OI LINDA, QUE TEXTO BOM E EMBASADO COMO TUDO O QUE VOCÊ FAZ...FIQUEI MUITO FELIZ EM TE VER ENGAJADA NO QUE VOCÊ GOSTA QUE É VIVER E COMENTAR SOBRE MÚSICA...PARABÉNS. JÁ ESTOU CURIOSO PARA VER O FILME. SAUDADES...BJS.
6"AÊ Olga!!!" Comprei filme (pirata) na 24 de maio (conhece?), assisti e é isso mesmo, bom, intenso, informativo vale ver. Já o texto, muito bom é o filme que está ali retratado. Obrigado por tudo.
7"Saudade, Olguinha!" Olga, muito bom o texto! Agora só falta eu ver o filme, hehe. Eu nunca tinha lido nada seu, o seu texto é ótimo, e bem claro! Saudade! Lembrei da nossa saga no Olido, pois tenho assistido uns filmes do Saura. Comprei "Cría cuervos" e amei, depois conversaremos a respeito. ;) beijo.
8"vai pra lá" a poltrona do cinema onde vi o filme é ótima, dormi como nunca. vai pra lá! sobre o texto todo mundo já sabe, OLGA! BJÃO
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