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Bob Dylan é o pai de todos em "Não Estou Lá" PDF Imprimir E-mail
Escrito por Olga Costa   
17-Abr-2008
olgas_i_m_not_there1.jpgRobert Zimmerman começou a escrever o roteiro da sua vida a partir do momento que ouviu pela primeira vez a canção "Drifting Too Far from Shore" cantada pelo Bill Monroe, o pai do bluegrass (ver nota abaixo). A música o atingiu de tal forma que chegou a dizer, no documentário "No Direction Home" de Martin Scorsese: "o som do disco fez com eu me sentisse outra pessoa... Parecia que eu nem mesmo nasci com os pais certos, ou algo assim".
O diretor inglês Todd Haynes não teve muito trabalho ao filmar a vida de Bob Dylan. Ele tinha em suas mãos um roteiro praticamente pronto de uma vida fascinante, cheia de contradições e musicalmente sem precedentes. O único empecilho era o fato de Dylan nunca ter liberado nenhum projeto cinematográfico envolvendo sua vida (na época do lançamento de Uma Garota Irresistível - Factory Girl 2006, circulou uma notícia de que Dylan iria proibir as exibições pelo fato de ter referência a sua pessoa, apesar de seu nome não ser citado em nenhum momento).

 Desde o ano de 2000, Todd Haynes passou a perseguir a idéia de filmar a vida daquele que ouviu pela primeira vez ainda adolescente: "sempre ouvi dizer que muita gente se envolve com a música do Bob Dylan para se libertar ou para se encontrar. E eu estava num momento exatamente assim - tinha desistido de Nova York e tinha acabado de mudar para Portland, Oregon." A história se repetia - agora era o impacto da música de Dylan, de volta, em Haynes.

Mesmo envolvido em outros projetos, durante todo esse tempo, nunca deixou de pensar como viabilizar seu filme. Através do filho mais velho e também diretor, Jesse Byron Dylan, Haynes conseguiu falar com o produtor de Dylan, Jeff Rosen. Ouviu atentamente todas as dicas, evitou os jargões usados com relação a importância do compositor e entregou o roteiro sem nenhum expectativa. Depois de semanas, recebeu um telefonema de Jeff dizendo que Dylan tinha aceitado liberar o roteiro com uma inesperada condição: além de filme, I´m Not There (Não Estou Lá - EUA 2007) também teria uma versão para teatro. Uma curiosidade: Cate Blanchet foi a única que participou dos dois projetos.

Bob Dylan era adjetivado frequentemente como mutável e inconstante. Haynes foi obrigado a optar por mostrar na tela, uma personalidade que, mesmo desfragmentada, era composta por seis personas inventadas e/ou vivenci
adas pelo músico. A primeira delas era Woody Guthrie interpretada pelo Marcus Carl Franklin (o único que realmente cantou e tocou no filme). Segundo o cantor e compositor Mark Spoelstra: "Woody era muito importante para nós dois. Acho que Bob queria ser mais como Woody do que eu. Ele conseguiu adotar umas características teatrais próprias. Na verdade, no primeiro encontro, ele de certo modo, estava atuando. E aquilo era bom. Pode-se ir a qualquer lugar quando se é outra pessoa." Mark faleceu em fevereiro de 2007 e foi um dos primeiros que tocou com Dylan em Nova York. Para Bob Dylan, Woody Guthrie "foi um radical, suas músicas tinham tendência radical" e era exatamente o que Dylan queria cantar e incorporar naquela época. Dylan não entendia por que para a maioria das pessoas aquelas "músicas soavam arcaicas, não sei por que não soavam arcaicas para mim. Para mim, parecia que aquelas canções aconteciam naquele momento". A música de Woody Guthrie era uma lição de vida: "Pode-se ouvir suas músicas e realmente aprender a viver." afirmava Dylan.
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 Cate Blanchet ficou com a missão (cumprida com maestria) de reviver o rebelde Jude Quinn que, chamado de "cantor de protesto", revoltou-se contra esse rótulo e metralhou sua platéia, fiel ao folk, com riffs de guitarras elétricas. Era como se o próprio Dylan reafirma-se o que disse certa vez: "Não sinto que tive um passado... E não poderia me relacionar a nada diferente do que fazia na época. Não me importa o que eu disse. Não me importa mesmo."

Jack Rollins foi o nome escolhido para o personagem de Christian Bale, retratado apenas em fotos, capas de discos e apresentações de tv. Haynes, em certo momento do filme, criou uma falsa expectativa de revelação, quando numa cena a repórter anunciou: "hoje à
noite estaremos face a face com o verdadeiro Jack Rollins...". Bale é o único ator que fez dois Dylans: o "trovador da consciência da música folk" e o Pastor, mas na verdade, nem o trovador, nem o pastor estiveram lá.

Robbie Clark interpretado pelo ator Heath Ledger, que morreu no final de janeiro desse ano, representou o lado cinematográfico que sempre fascinou o compositor. Bob Dylan escreveu, dirigiu e atuou no final dos anos 70 um filme chamado Renaldo e Clara; fez a trilha sonora e atuou, também, em um filme de Sam Peckinpah, Pat Garrett e Billy the Kid. Robbie Clark fez o papel de Jack Rollins no cinema.

Billy the Kid foi como Haynes escolheu chamar o personagem de Richard Gere que representou o período de longo isolamento
da vida pública, logo após ao suposto acidente de moto.
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Ben Whishaw representou Arthur Rimbaud, o Bob Dylan poeta, devorador de livros, assim como o Dylan outsider, que se identificou com Bound to Glory do Woody Guthrie, On the Road de Jack Kerouac, que aproximou Allen Ginsberg e se sentiu íntimo de todos aqueles ´malucos´ que gravitavam nas ruas de Greenwich Village. O Dylan que caiu na estrada e recolheu para si tudo que precisava para se reciclar, constantemente. Arthur Rimbaud é o personagem que pontua todo o filme. É ele que dita "as sete regras para se viver no anonimato".

Ao escolher uma forma de mostrar a trajetória de Bob Dylan, Haynes optou por um formato nada convencional. Além de desfracionar a persona Dylan em seis personagens distintos, escolheu também refilmar trechos completos dos documentários No Direction Home e Don´t Look Back (Martin Scorsese e Donn Alan Pennebaker, respectivamente) que são vistos nos personagens de Jude Quinn e Jack Rollins. Os seis personagens formaram um amálgama denso que se interligaram de forma inusitada e muito criativa. O bom humor sutil e sagaz de Haynes despontaram em momentos inesperados como nas citações das músicas Just Like a Woman, Only a Pawn in Their Game e no encontro de Dylan com os Beatles.
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 Na trilha sonora, Todd Haynes, escolheu músicas representativas e não privilegiou os hits, como Blowin´ in the Wind, Lay, Lady, Lay e Knockin´on Heaven´s Door (tocada no final do filme na subida dos créditos, numa versão super melancólica de Antony & The Johnsons), preferiu deixar boa parte das músicas que não são cantadas pelo próprio autor, ao cargo da desconhecida banda de Tucson, Arizona chamada Calexico, de quem é a versão de Going to Acapulco com Jim James do My Morning Jacket nos vocais. A música compõe uma bonita homenagem ao The Band, numa cena que é também, uma citação a turnê Rolling Thunder Revue de 1975. O restante da trilha, lançada lá fora em CD duplo, tem ainda John Doe (ex-baixista da banda X de Los Angeles) numa leitura fiel de Pressing On e Jeff Tweedy do Wilco com Simple Twist of Fate.

Com "Não Estou Lá" Todd Haynes não só fechou o seu ciclo pessoal iniciado na adolescência com a música de Bob Dylan, como também, atingiu a maioridade como cineasta e chegou muito perto de revelar o lado mais desconhecido  do compositor americano.

 

NOTA:

BLUEGRASS - estilo primitivo americano que tem raízes nas músicas tradicionais tocadas pelos imigrantes da Escócia, Irlanda e Inglaterra. A principal característica está no fato de apenas um instrumento tocar a melodia principal e os demais improvisarem. Outra curiosidade a respeito do estilo: o não uso de instrumentos elétricos na execução das músicas. Os instrumentos mais usados são violino, violão, bandolim, banjo e baixo acústico. Bill Monroe é o criador do estilo que se popularizou com sua banda batizada de "Bill Monroe and the Blue Grass Boys".
» 8 Comentarios
1"Quero ver" de Anderson em 17 de abril de 2008 20:34
Quero ver este filme... Ainda ñ vi... 
Ñ vejo a hora de ver a atuação da Cate Blanchett...
2"Texto maravilhoso!" de Lílian Vianna em 17 de abril de 2008 21:59
Eu já posso entrar para a tua lista de fãs?
3"Eu também não estou lá!" de Patativa em 18 de abril de 2008 01:10
Eu já tinha lido alguns textos sobre o filme I'm not there, e vi o trailer umas 3 vezes... mas a forma apaixonada com que a minha doce e querida amiga Olga escreve e descreve certas particularidades, ainda ignoradas por mim, é fabuloso!! Parece até que posso ver os olhos dela brilhando enquanto digita o texto!!  
Pois é, no dia que a Olga tava terminando de redigir o tal artigo, a gente tinham arcado de sair e tomar umas cervejas e botar o papo em dia (não a vejo desde o dia que a recebi em meu apartamento, ainda lá em Porto Alegre, quando ela foi fazer uma entrevista com os Irmãos Rocha, etc). Bem, a saidazinha ficou pra depois. O teu texto, Olga, mereceu o adiamento.  
Ainda quero ter bagagem suficiente pra que você queira escrever um texto tão legal assim, falando das minhas musiquetas e tal... e só assim o título do meu comentário poderá ser: "Eu estou lá!" 
 
Bjo, querida!!
4"texto e trilha" de Jesuino em 18 de abril de 2008 08:22
Olga fala e escreve com propriedade. 
Essa trilha sonora do filme ficou um primor!
5"MUITO BOA DE TEXTO" de NEWMAN BELO em 18 de abril de 2008 12:00
OI LINDA, QUE TEXTO BOM E EMBASADO COMO TUDO O QUE VOCÊ FAZ...FIQUEI MUITO FELIZ EM TE VER ENGAJADA NO QUE VOCÊ GOSTA QUE É VIVER E COMENTAR SOBRE MÚSICA...PARABÉNS. JÁ ESTOU CURIOSO PARA VER O FILME. SAUDADES...BJS.
6"AÊ Olga!!!" de Jean Carlos em 21 de abril de 2008 09:03
Comprei filme (pirata) na 24 de maio (conhece?), assisti e é isso mesmo, bom, intenso, informativo vale ver. Já o texto, muito bom é o filme que está ali retratado. Obrigado por tudo.
7"Saudade, Olguinha!" de Julie em 22 de abril de 2008 14:25
Olga, muito bom o texto! Agora só falta eu ver o filme, hehe. Eu nunca tinha lido nada seu, o seu texto é ótimo, e bem claro! 
Saudade! Lembrei da nossa saga no Olido, pois tenho assistido uns filmes do Saura. Comprei "Cría cuervos" e amei, depois conversaremos a respeito. ;) 
beijo.
8"vai pra lá" de e-dull em 29 de abril de 2008 13:26
a poltrona do cinema onde vi o filme é ótima, dormi como nunca. 
vai pra lá! 
sobre o texto todo mundo já sabe, OLGA! 
BJÃO
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