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Uma Voz AfroNordestina PDF Imprimir E-mail
Escrito por Jesuíno André   
14-Abr-2008
afro3.gifO grupo paraibano de hip hop AfroNordestinas foi formado em 2003 pelas cantoras Kalyne Lima e Juliana Terto, com o complemento musical do produtor DJ Guirraiz. De lá pra cá já amealharam vários prêmios em festivais estaduais, no ano passado ganharam o Prêmio Hutúz, o mais importante do continente no genêro. Conversamos com a líder Kalyne Lima, interprete e principal compositora do grupo, que nos fala sobre o rap/hip hop paraibano  e as atividades do AfroNordestinas.

LadoNorte.net - Recentemente conheci uma coletânea chamada Nordeste Rap contendo vários grupos e artistas doafro1.gif rap/hip hop local, entre os quais o AfroNordestinas. Como voce analisa esse cenário atual do rap paraibano? Como situá-lo. Onde encontrá-lo. Quais as dificuldades no meio.

Kalyne Lima -  Bem, fazendo uma análise geral da cena, a Paraiba, apesar de apontar para um profissionalismo necessário, ainda se mantém um tanto quanto adormecida em relação ao outros estados. Hoje existe uma preocupação maior com a qualidade do que está sendo produzido, mas está se perdendo um pouco do espírito ativo que o hip hop exerce, o do protagonismo. Há quatro anos atrás haviam muitas manifestações de hip hop pela cidade, hoje eu sinto que estão esperando que algo aconteça, mas não acontece, porque seja no hip hop ou em qualquer outro gênero musical, na Paraíba o artista tem que ser guerrilheiro e batalhar pelo espaço, caso contrário vira produto da net e não chega organicamente ao público.

LN - Geralmente o rap e a cultura hip hop  é associada à camada mais pobre da população que moram na periferia. Esse preconceito ainda persiste? O que pensam os ativistas e artistas do meio sobre o assunto?

Kalyne - Associar o hip hop a camada mais pobre não é preconceito, é constatação. O hip hop atua na sua essência nesse universo. No entanto ele tem uma característica de reproduzir com arte a realidade de quem pratica hip hop. Isso com certeza incomoda muita gente que estava acostumada com o silêncio do povo. Genuinamente é uma cultura de periferia, no entanto é cultura e cultura é livre. Quem se identifica faz; o próprio funk hoje é consumido pelo universo burguês. Eu enquanto artista adoro as produções do Marcelo D2, o cara é um tremendo produtor e popularizou o rap no Brasil, mas acredito o que os Racionais fez foi singular, pois ao contrário de Marcelo D2, não teve que tornar o rap pop pra ser popular. O Racionais atingiu todas as camadas da sociedade com o genuíno rap  de musicas fortes e grandes, agora na minha ótica milista (termo criado no I Encontro Nordestino de Hip Hop pra definir uma pessoa que é artista e ativista do hip hop) o MV Bill tem uma postura militante e é um tremendo artista, acaba contribuindo de forma mais completa  com o objetivo de desenvolver o hip hop como arte sócio cultural.

LN - Numa recente entrevista voce disse que o rap e a cultura hip hop é um elemento também de formação educacional. De que forma isso pode acontecer?

Kalyne - Através do protagonismo. O hip hop é uma cultura que lhe estimula a estudar e crescer intelectualmente, mas não lhe exige nenhuma formação prévia ou posterior. Apesar de que, de uma forma ou de outra, a pessoa sempre chega num momento de sentir a necessidade de expandir. Euu não precisei fazer faculdade de música ou artes pra fazer música rap ou graffiti, apesar de hoje sentir vontade de ter mais conhecimento. A inclusão e o poder de mobilização do hip hop é o que fortalece.

afro2.gifLN - Onde podemos encontrar shows de rap em João Pessoa? Existem locais específicos?

Kalyne - Já tivemos dias melhores, mas hoje o hip hop atua meio coadjuvante o que é bem contrastante, já que um dos lemas é "faça você mesmo". Sabemos que aqui não tem cena nem pra grandes artistas como Escurinho. A Prefeitura através da FUNJOPE tem contribuído e inserido grupos e artistas de hip hop em suas programações, como fazem com todos os gêneros, mas ainda não é suficiente. Precisava haver um espírito empreendedor de mais pessoas e botar fé que o rap pode ter a mesma força do reggae na nossa cidade.

LN - Como voce definiria o AfroNordestinas? O que lhe moveu a formar o grupo?

Kalyne - O AfroNordestinas hoje é a minha prioridade, nem sempre foi assim. Houve um momento que o meu outro grupo Realidade Crua era o meu foco, ainda é, mas o Afro por si só tomou meu tempo e meu espaço porque acabou chegando mais longe até agora.  O meu principal objetivo de formar o Afro era ter um espaço feminino pra poder ter um discurso feminino e expor conceitos femininos. Não somos feministas como muitas pessoas pensam e também não temos nenhum problemas com conceitos feministas. Apenas não levantamos essa bandeira, quero ter liberdade e tranquilidade pra falar das coisas que penso sem me prender a conceitos, hoje trabalhamos com o Produtor e DJ Guirraiz o que acaba equilibrando um pouco o discurso. Me sinto feliz por poder ter conquistado com o Afro coisas que nenhum outro grupo da Paraiba conquistou, acaba não sendo um vitória pessoal e sim uma conquista de gênero.

LN - Ano passado o grupo foi agraciado com o importante Prêmio Hutúz na categoria Melhor Demo Feminina. Como foi isso e qual significado em receber uma premiação dessa?


Kalyne - Esse sem duvidas foi o mais importante, mas não foi o único. O Afro vem quebrando barreiras desde 2003 quando ganhamos com duas musicas o Prêmio Revelação do Festival Mulheres cantam Mulheres. Geramos polêmicas e discussões sobre se o Rap era ou não música, concorremos com cantoras de MPB e musica regional e lembro de uma nota no jornal onde dizia: "não eram cantoras de barzinho nem estavam no cenário na música popular, o Prêmio Revelação foi pra um grupo de rap"... Então, era como se fosse uma intromissão. Em 2004 repetimos a dose sendo que no MPB SESC e em 2007 além do Hutúz, ainda ganhamos o prêmio de Melhor Lêtra e o 1º lugar geral do Mulheres Cantam Mulheres. O massa do Hutúz foi a distância e saber que depois da primeira etapa, o que dava a vitória era o voto popular, sei que muita gente da Paraiba votou, mas acredito que vencemos pelo voto do Nordeste, que já é enorme e quando unido fica imbatível! E o melhor foi as mensagens que recebemos de pessoas que sinceramente compartilharam a vitória conosco, o Hutúz é um prêmio do Nordeste e isso não é porque eu acho e sim porque as pessoas se comportaram assim e fico feliz por isso.

LN - O que e quem influênciou no som de voces?


Kalyne -
Esse é o tipo de pergunta que eu menos sei responder, o que me influência até hoje é a necessidade que eu carrego de falar coisas sobre as quais eu vivencio. Acho que Cassiano Pedra (um dos pioneiros do hip hop local) me apresentou o hip hop ideologia, depois pude conhecer as expressões artísticas. Acho que os problemas de machismo que minha mãe enfrentou, acho que a luta de minha avó de até hoje trabalhar pra segurar a onda dos filhos, acho que Juliana (parceira de trabalho e amiga) que segura a maior onda com sua filha Vitória. Princesa Raquel (pioneira mulher do hip hop local), não tenho nenhum artista que tivesse inspirado o meu começo, tem muita gente que admiro hoje profissonalmente falando, mas na real o que segura minha onda é quem tá do lado e que divide a batalha comigo: meu esposo e minha filha. Tento vencer por eles, são minha inspiração e mola que me impulsiona.

LN - O que voces planejam para 2008?


Kalyne - Lançar finalmente o CD do AfroNordestinas com a Produção do Produtor e DJ Guirraiz, tentar fazer uma turnê pelo menos pelo Nordeste e quem sabe lançar algum material audio-visual, mas o desejo maior além desses citados é fazer muito show, estamos com sede de tocar. Fazer show é o termômetro do trabalho, começamos bem 2008 e espero que continue.

www.myspace.com/afronordestinas

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