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Seu Padre eu vim me confesá, mas eu quero uma penitença das braba, porque a minha curpa é muito grande pra se pagá. Carregar uma cruz nas costa daqui pro Juazeiro é pouco pra mim seu Padre, pra o sinhô me intendê minha histora vor contar...
Seu Padre eu sou apenas mais um "José" desses nascido no sertão do nodeste de apelídio "Zé", a agaranto pra o sinhô, sou todo coração... Não sou homi de matar uma mosca e nem de engolir corda que nem caçimbão.
Seu Padre eu tenho duas fía, razão de minha existença, são as luis que alumia os meus óio. Uma se chama Ana, a mais véia, um rosto de anjo e uns óio preto de abestalhar quarquer cidadão, e Maria, Mariazinha ... a mais nova, a minha flôzinha do mandacaru, anda correndo atrás de mim adonde eu vô. A mãe delas morreu pouco depois que Mariazinha nasceu, e eu cuido delas, desde intão, dou comida, carinho e até inducação.
Seu padre eu trabaio na fera, numa banca de peixe e uso uma faca peixera pra tratar os bicho. Todo dia, como a santa Avé Maria as seis hora, Ana e Maria, as doze horas vem trazer meu armoço, a visage delas naquela mormento do dia sempre me traz uma grande alegria que num consigo inspricar. É como se eu recuperasse as energia com toda a alegria e os abraços que elas me dá.
Pois acontece seu Padre que na fera tinha um caba desses safado, de nome Clemente, e eu já tinha lhe avisado, porque pra Ana ele vinha com umas pilera. E naquele dia ao ver as duas ao meio-dia foi quando me veio uma alegria que logo se transformou em raiva. Clemente, o caba da peste safado, sartô na frente de Ana, lhe sortô uma pilera, e não sartisfeito com a mão alisou o cabelo dela. Seu Padre, o sangue subiu, e naquela hora me fartô a razão, a cabeça ferveu que nem panela de pressão, passei a mão na peixeira vuei por cima do banco e cai no mei da fera, risquei a peixeira no chão e gritei -"Clemente caba Safado de uma peste, que num tem nem pai, nem mãe, deve ser filho de chocadeira, pra num a ter inducação, pois agora eu vou ser teu prefessor, e a cartilha é essa peixeira, e aqui no mei dessa feira tu vai aprender a respeitar a filha de um trabalhador !". Nisso foi aquele alvoroço, gente a gritar e correr, outros a se juntá pra vê. Mariazinha desabou a chorar e Ana se agarrou com ela, que também já estava aos prantos.
Pois seu Padre, Clemente, caba covarde de uma peste, puxou uma garuncha, daquelas "dois tiros e uma carrera", fez pontaria em mim, bem na caixa do peito, e atirô, rápido que nem um gato eu sartei por cima de um banco de fera e o tiro pegou de raspão no meu braço.
Caido no chão sem puder me adefender, o caba se aproximou, com a mão a tremer, engatilhou a garruncha fez pontaria de novo, e puxou o gatilho sem pensar. Só que na hora da minha queda Mariazinha se sortou de Ana e correu pra comigo se agarrar, e bem na hora do tiro ela se pendurou no meu pescoço, e a bala pegou nas costa dela... E agarradinha comigo eu vi o vestidinho branco dela se manchar de vermeio, os óinhos dela fecharem e seus bracinhos esmurecer e ela me sortar... seu Padre nessa hora os meus olhos se echeream de sangue e na minha frente só via o vermeio do vestido de Mariazinha, deitei ela no chão, Ana chegou pra acudir, de um sarto eu tava de pé e com a peixeira na mão. O caba tentou fugir mas eu não deixei não, olhando nos óio dele, ele não falou nada e nada também falei e enfiei a peixeira no pé do bucho dele, até o cabo, e subi ela até a caixa dos peito, como quem se abre um peixe, coisa que eu sei fazer muito bem, o caba foi arriando devagar como quem não tá a acreditar que é chegada a sua hora. Eu acopanhei a queda dele, olhando nos olhos dele, até ele cair no chão. A minha peixeira enfiada nele até o cabo e o sangue dele escorrendo na minha mão, vi e os olhos dele se fechar.
Seu padre eu virei pra minha menina, Ana aos prantos e Mariazinha parecia que dormia, seu padre eu desabei no choro, e não sou homi de chorar, mas a minha minininha ali caida nos braços de Ana, toda ensopada de sangue, essa visage eu vou sempre me lembrar...
E é por isso que estou aqui seu Padre, para me confesá, ontem enterrei Mariazinha, mas a dor é muito grande pro mode eu aguentar, seu Padre, e a curpa maior ainda, por isso venho lhe pedir uma penitença, das grandes pra que Deus tenha dó de mim, e me leve pra junto de Mariazinha.
- Meu filho, eu não vou lhe penentenciar a nada, você fez o que todo caba macho faria para defender a honra da suas filhas, matar ou morrer. A infelicidade aconteceu e a justiça de alguma maneira foi feita, quanto a sua culpa, não tem penitência nenhuma no mundo para te aliviar. Vá pra casa porque Ana ainda precisa de você. E sua penitência, você já esta pagando e vai pagar até o final da sua vida. Mariazinha, deve estar ao lado de sua mãe no céu, Deus é justo com os inocentes. Mas lembre-se, e ensine para todo mundo que lhe perguntar, que uma "pilera", talvez, seja menor que a sua dor, e menor a ainda que a vida de Mariazinha.
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4 Comentarios
1"caba macho!" muito bom, muito bom!
2"Eitcha! =)" Coisa boa heim!! (O texto e não a tragédia) Fiquei com o coração apertado, coitado do cabra. =] Gostei, gostei. Abraços p'ra ti.
3"Talentoso" Renato, você é um caba cheio de talento! Muito linda essa história, se continuar, vai virar filme! Parabéns!
4"**muito bom**" Parabéns!! Tá muito boa essa tua história!! Legal mesmo!! Abraços!!
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