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Bilac, cabra safado, devolva o palitó do falecido! PDF Imprimir E-mail
Escrito por J. Lacoli   
21-Fev-2008

Essa história também vem lá de Ituberá, cidade secular, localizada na região do baixo Sul da Bahia, farta em acontecimentos engraçados, casos variados, hilariantes.

É que a vida naquela terra, privilegiada pelas águas dos seus rios, pelas suas cachoeiras e pela sua vegetação exuberante, a transforma em ambiente acolhedor, cercada de coqueiros, dendezeiros, árvores frutíferas, com suporte fértil na agricultura, com vastos plantios de seringueiras, cacaueiros, craveiros, pimenta do reino, piassava e guaranás.

Como se vê, terra com uma agricultura forte e um povo pobre, vivendo na contradição de uma política agrícola nacional inexistente, sem qualquer planejamento e nenhuma garantia.

O caminho para o mar, dos mais bonitos, faz de Ituberá uma princesa pobre de ares aristocráticos, cujo aspecto decadente e sem dinheiro, desdentada e mal vestida, ostenta a face de uma burguesia lisa, pendurada nos frutos podres do cacau, vencida pelas vassouras de bruxas ou hipotecada nos bancos ou nos agiotas de plantão.

Carente na área política, cujas lideranças não fazem por merecer a riqueza potencial de sua agricultura, assim, vive Ituberá a sua magia desfigurada, sob um aroma de cravo e canela, que se respira em cada rua, fazendo com que os nossos pensamentos retornem ao passado, na época áurea do cacau e da literatura do imortal Jorge Amado.

E nesse clima que cresceu a figura de Walter Bilac, jovem egresso do distrito de Pirai do Norte, no passado sob a jurisdição de Ituberá.

Pois bem, Bilac de família humilde, veio morar em Ituberá, a sede do município, onde completou com brilho o curso primário e ingressou, como aprendiz, na oficina elétrica do mestre Manoel Simplício.

Simplício era um técnico em eletricidade, especialista em reparos de motores e geradores elétricos, curiosamente, também efetuando reparos em rádios, radiola e nos primeiros aparelhos de televisão em preto e branco que chegavam a Ituberá. Um técnico de conhecimentos avançados para os padrões da época.

Oficina das mais organizadas, Simplício prestava serviços para a comunidade local e também para uma indústria incipiente que começava a funcionar na cidade.

O técnico Manoel Simplício, experiente, com mais de 60 anos, veio de Salvador, trazendo mulher e filhos e logo conquistou fama de bom profissional, fazendo de sua casa comercial um celeiro escolar, com a admissão de vários e dedicados aprendizes, entre eles o mais destacado o jovem Walter Bilac, rapaz simpático, de média altura, de boa conversa, pardo, olhos pretos, rosto arredondado e cabelos crespos.

Casado com uma filha de estrangeiro, radicada no Brasil desde os dez anos de idade, Larissa Simplício, era uma mulher alva, de olhos verdes, traços bonitos, cabelos castanhos claros, alta, impressionava pela sua desenvoltura e comunicação.

Ajudava o marido nos negócios, estava sempre na linha de frente, pois além de saber enrolar motores de alta precisão, era mais hábil ainda em enrolar o próprio marido, transando com alguns clientes famosos, era o que se comentava a boca pequena por toda a cidade.

Foi assim que nasceu um romance tórrido entre Larissa e Bilac, uma paixão avassaladora entre aquele jovem e a mulher de Simplício, seu mestre em eletricidade, apesar a diferença de idade de Larissa, mais velha que Bilac em quase vinte anos.

Não demorou muito tempo e eis que Manoel Simplício, inocente a tudo que se passava em sua movimentada oficina e também pela idade avançada, morreu repentinamente, deixando tudo para a sua dadivosa viúva que, de maneira aberta e sincera, assumiu publicamente a sua nova relação amorosa e as conseqüências de seu ato, passando a viver maritalmente com o jovem aprendiz Bilac.

O romance transcorreu normalmente por alguns anos, Bilac procurou assumir responsabilidades maiores, naturalmente, chocando-se com as idéias dos filhos menores de Larissa que não o aceitava, sequer como padrasto e muito menos que morasse na residência de seu pai.

Bilac pouco se lixava com tal situação, teve dois filhos dessa relação, mas voltando as origens em Piraí do Norte, reencontrou-se com um velho amor, uma bonita mulher, na flor de sua adolescência, antiga colega de escola, morena de olhos pretos, cabelos lisos ainda uma contraparente de seu genitor. Uma jovem que era um gostoso pitéu.

E o amor entre eles foi uma torrente incontrolável, em pouco tempo estavam noivos e casamento marcado, para a surpresa de Larissa que não admitia, de maneira algum, perder o seu grande amor.

Bilac decidiu deixar a casa de Larissa, abandoná-la sem qualquer compromisso, a não ser os gastos escolares com os dois filhos que tivera.

Larissa ficou desesperada, pretendia vingar-se de Bilac, estava disposta a matá-lo no dia do casamento em Piraí do Norte, tendo, inclusive, conseguido um revólver calibre 38, oferta de uma amiga solidária de nome Josefina Mendes.

E o desfecho desse encontro foi uma pérola que enfeitaria qualquer conto do fenomenal Nelson Rodrigues.

Pois bem, o irrequieto garanhão Bilac, apesar de saber do plano de Larissa o subestimou e no dia do casório, adentrou a capela para as cerimônias do casamento, diga-se de passagem, a igreja completamente lotada, e ele bem vestido, ostentava uma calça preta, camisa branca, gravata colorida e um bonito paletó de casimira importada, que lhe ajustava ao corpo, qual um modelo nobre da melhor grife italiana.

Depois daquele silêncio absoluto, antes da entrada da noiva e do tradicional canto nupcial, ouviu-se um qüiproquó na entrada da igreja, com a turma do deixa-disso procurando dominar à descontrolada Larissa que, de revólver em punho e aos gritos ensurdecedores falava bem alto:

"Bilac: você quer casar com o paletó do meu marido, seu cabra safado, devolva o paletó do falecido, seu filho da puta".

Imaginem o transtorno dessa confusão. Bilac indagado pelo cronista desmentiu a versão do paletó, alegando que mandara fazer um terno branco, de linho diagonal, tecido da moda, pelas mãos hábeis do alfaiate Anacleto que, já morto, não confirmou a sua versão.

Mas, convenhamos, aqui pra nós, é ser muito cara de pau!

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