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Bujango, o moralista, e o coice do jumento! PDF Imprimir E-mail
Escrito por J. Lacoli   
20-Mar-2008
Numa crônica passada, escrevi sobre o meu vizinho Bujango, um sarará infernal, briguento, morador de Ituberá, (imaginem que tinha que ser de Ituberá), naturalmente, uma cidade maravilhosa e cheia de mistérios e casos engraçados.

É que Bujango era desses adolescentes inquietos, cheio de astúcias, não parava um só instante nas suas estripulias.

Nossas casas eram vizinhas, morávamos naquela época, perto do mercado municipal, local onde todo o sábado acontecia à feira da cidade.

Ali se vendia de tudo. Eram os beradeiros que vinham em canoas trazendo peixes, ovos, galinhas de capoeira, camarões, óleo de dendê, pimenta do reino, piassava, lenha para os fogões, pois não existia na época fogão elétrico, nem gás. Quando muito, podia se comprar um fogão a ser utilizado com carvão vegetal, produto que também os beradeiros produziam e comercializavam.

Também eram assíduos participantes das feiras, os matutos que habitavam em terra firme, transportavam os frutos de suas produções para o mercado.

Diferentemente dos beradeiros, eles chegavam montados a cavalo, burros, jumentos e bois. Traziam nos caçoais a farinha de mandioca, o inhame, a rapadura, o mel, o cacau, jacas, cajus, bananas, laranjas, limas, mamões e outras frutas e produtos de sua fabricação doméstica.

Havia então aquele intercambio comercial, aquela confusão dentro do mercado, aquela gritaria do compra e vende, a circulação da moeda se fazia sentir, os comerciantes da cidade podiam vender tecidos, roupas, comidas, remédios, óleo, querosene, cobertores, calças e vestidos.

Era dia de grande movimentação, uma tradição como se faz até os dias atuais, naturalmente, com maior sofisticação nas trocas e vendas.

Hoje em dia o matuto só trabalha para comprar televisão a cores, antena parabólica, vídeo cassete, aparelhos de som e celulares.

A maioria deles substituiu as canoas por lanchas a motor e os animais por veículos possantes, modernos, os quais atravessam qualquer tipo de atoleiro, pinguelas e riachos.

Como nada disso existia naquele período, o jeito era usar a montaria, trazer os animais carregados e voltar com eles também carregados. Era hábito após a descarga das mercadorias vindas do interior, os matutos deixarem os animais a descansar e foi isso que aconteceu na porta da casa de Bujango, logo cedo, talvez por volta das dez horas da manhã.

Então, nessa ocasião, um robusto jumento pega, pertinho da janela de sua casa, estando livre da pesada carga, respirava profundo para descansar, depois de beber água e comer uma banda de jaca mole, fruto cujo aroma se espalhava por toda a rua.

Parecia que a jaca tinha propriedades afrodisíacas, pois mal o jumento a saboreou, o vigoroso animal escalou a sua espada comprida, a qual balançava de baixo para cima, tocando-lhe no peitoral, uma ferramenta de tamanho descomunal, de fazer inveja a qualquer quadrúpede, cacêta bem desenvolvida que alcançava as patas dianteiras.

Esse fato foi bastante para enfurecer o moralista Bujango que jogava futebol no jardim, defronte da sua casa. Bujango, o moralista, de forma alguma, aceitava aquele desrespeito jumental.

Pensou na sua mãe, uma senhora casta e nas duas irmãs que poderiam sair de casa a qualquer momento e se deparar com aquele espetáculo que entendia constrangedor e vexatório.

Aí ele se encheu de brios, ferido em seu ego moralista, e partiu, imprudentemente, para executar uma arriscada operação, visando acabar com a alegria do jumento, isto é interromper, de forma brutal, o descontraído balançar daquele avantajado cacete.

Bujango largou o jogo de futebol, desfalcando o seu time, sacou de um pedaço de pau, afiou a sua ponta esfregando-a no passeio de cimento e, silenciosamente, nas pontas dos pés, acocorando-se por trás do jumento, logo perto das patas traseiras, deu uma possante ferrada no pau do inocente animal.

Confesso que nunca vi tanta ligeireza num animal que, ofendido e em legítima defesa, repeliu, em ato contínuo a agressão, dando um coice fenomenal no moralista Bujango, atingindo-o com as duas patas o nariz e a caixa dos peitos, jogando-o para o alto, como se fosse um brinquedo.

Bujango levantou-se apressado, o sangue jorrava-lhe sobre a face, enquanto aos gritos de dor, disparava para dentro de sua casa.

Nós ficamos, no início, preocupados, mas depois que o vimos chorar e correr como se fosse um maluco, pois sabíamos que não era nada tão grave e começamos a sorrir pelo inusitado acontecimento.

O moralista Bujango, desta vez, se ferrou. Nunca mais interrompeu o balançar dos paus dos jumentos.

A sua lição ficou muito cara, provando assim o velho adágio popular que diz: Depois da queda, coice!

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