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Meu nome é Jonas PDF Imprimir E-mail
Escrito por Jesuino Andre   
18-Mar-2008

Acordei emocionado. Lembrei de Jonas. Era um ser humilde, um dos personagens que povoam minhas memórias de quando morava no interior da Bahia. Fez parte dessa minha proto-história. Ele morava num sitio, quinze quilômetros de distância e todos os sagrados sábados descia a serra – geralmente com alguns familiares - para vir a feira. A casa de minha avó Vitória, cujo coração não tinha porta e nem janela, recebia a todos com alegria e satisfação, e alguns dos seus pequenos netos não gostavam, entre os quais eu. Achávamos que esse povo queria usufruir a boa vontade da dona da casa, cominam, não tinham modos e nada interessante para dizer...

 

Jonas deveria ter uns trinta anos e um ar meio abobado, tinha duas paixões: sua impecável bicicleta e o ídolo Roberto Carlos. Adorava quando o chamavam pelo nome do Rei. Toda vez que chegava me saudava chamando meu nome com uma risada inocente estampada no rosto. Era trabalhador, cumpria as ordens da minha tia como a firmeza de um soldado. Capinava o quintal da casa, ia pegar botijões de água mineral e gás de cozinha, fazia o que pediam. Era deficiente de um olho, o que tentava disfarçar inutilmente e por infelicidade do destino desprovido de beleza que atraísse o sexo oposto. Penso até hoje se ele alguma vez teve mulher na vida.

 

Hoje, velho que estou, tento saber o sentido da vida. Crise existencial, é isso mesmo. E o passado devora, como se quisesse ensinar algo que ainda não aprendi. Talvez o fantasma de Jonas veio me esclarecer que a simplicidade, a boa vontade do coração, a lealdade, a solidariedade, a pureza da alma e a sinceridade são armas para desarmar qualquer espírito bruto, ignorante, qualquer mente egoísta arredia às coisas do bem-querer da Natureza. A nos fazer descobrir que temos importância e significância na brevidade da Vida. É tudo simples, mas quase sempre não enxergamos essa nobre Verdade, estamos atolados com as coisas desse outro mundo, como todos nós conhecemos e insistimos permanecer...

 

Soube depois, já morando aqui, que tinha morrido ainda novo de uma doença qualquer e provavelmente poucas flores no caixão...

 

Veja bem, um ser cuja existência nesse planeta foi meramente figurativa, hoje faz esclarecer minhas idiossincrasias. Acho que somos todos Jonas e talvez não descobriremos isso jamais.

 

Em memória dedico-lhe uma música que agora mesmo escuto e nem é essa que vocês estão pensado (não há nada de nerd power-pop nessa história). Para ele vai "Lonesome Day" de Bruce Springsteen.

 

É só pessoal!

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