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Alfredinho Laranjeiras o falso Pai de Santo PDF Imprimir E-mail
Escrito por J. Lacoli   
18-Mar-2008
Lá venho eu com mais uma história gostosa de Ituberá, terrinha maravilhosa perto do Recôncavo Baiano, atualmente apelidada de Costa do Dendê, abençoada pelos deuses, que misturam os aromas das suas plantações, impregnando o ar que respiramos quando percorremos os seus caminhos entre as suas árvores que nos levam ao altar das suas belezas, inebriados pela magia dos seus incensos florais que emolduram os nossos pensamentos.

É nesse santuário ecológico que há mais de cinqüenta anos, surge a figura de Alfedinho Laranjeiras, um sujeito bem alto, de pele clara, cabelos castanhos, olhos pretos, nariz aquilino, com um gingado de malandro da Bahia.

Era magro de pernas finas, barriga de cervejeiro, biótipo que evidenciava o gosto pela geladinha, mas que não dispensava uma cachaçinha no final da tardes, num barzinho próximo ao mercado no centro da cidade de Ituberá.

Novato na cidade, logo se integrou aos veteranos boêmios, Alfredinho tinha por hábito acompanhar as tardes, os colegas que trabalhavam na construção de um ancoradouro, denominada ponte da SAICI, obra em execução pela construtora Odebrecht.

A pequena Ituberá, na época com cinco mil habitantes, com população de maioria de negra, viu-se, de uma hora para outra violentada com a movimentação das máquinas Carterpillar da Odebrecht derrubando as árvores seculares, estuprando as terras virgens, vermelhas como sangue, indefesas pelo progresso na construção do campo de pouso, na abertura das estradas pelas matas adormecidas, agora apossadas pelos grupos empresariais interessados no cultivo da seringueira, cacaueiros e dendezeiros.

Pois bem, era na mesa desse barzinho que Alfredinho se reunia, ele um visitante ilustre, ostentava um currículo de fazer inveja aos companheiros e nativos, pois gozava da confiança dos diretores da construtora, para quem trabalhava em Salvador, desde adolescente.

Mestre de obra qualificado dominava os serviços de carpintaria, ferragens, armações, aprendera a calcular e ler plantas, era líder, gozava da confiança do patrão, de quem recebia missões até mesmo para fiscalizar outras obras importantes do grupo, razão pela qual fora transferido para acompanhar a construção do terminal na cidade de Ituberá.

Nascido no bairro da Liberdade, tinha por hábito, nos fins de semana e quando não estava no extra, de farrear, freqüentar o Mercado Popular, na Cidade Baixa, tomar algumas pingas, comer feijão com mocotó e moqueca de peixe bem apimentada.

Depois se dirigia aos terreiros da Liberdade ou na Lapinha, onde desfrutava do melhor conceito entre as Mães de Santo, que o chamava de meu branco, meu filho de Ogum.

Esnobando um currículo desse quilate, em pouco tempo era conhecido em Ituberá, tornou-se amigo de Edvaldo Castro, conhecido como Duda Capataz, um mulato bem falante, com quem logo se identificou, ambos experientes e com muitas histórias vivenciadas.

Capataz egresso do Porto de Ilhéus, onde trabalhara no período áureo do cacau, era responsável pelos serviços da capatazia do porto, onde marinheiros, ajudantes, e os donos dos saveiros, lanchas, canoas e navios tinham que prestar-lhe reverência, era a autoridade máxima portuária, não abria mão das suas prerrogativas.

Então esses encontros britânicos se repetiam na mesa de bar, ao lado do mercado, onde Duda Capataz e seus novos amigos entravam, noite adentro, sorvendo as rodadas de pingas, saboreando os tira-gostos da terra, animando as conversas de botequim.

Falavam de tudo e de todos, atualizavam-se sobre as meninas novatas chegadas ao cabaré da Nalva, lá no bairro Vai-Quem-Quer ou na casa de Donzela, de nome exótico, uma experiente cafetina que ensinou Ituberá a trepar.

Mas Augustinho, em pouco tempo, descobriu e tornou-se o líder do terreiro de Mariazinha, uma velha Mãe de Santo, bem referenciada, com respeitável folha de serviços prestados as dondocas da cidade.

O terreiro de Mariazinha ficava no Bairro do Luiz, naquela época de difícil acesso pela ladeira das Formigas, caminho de tropeiros, esburacados, árvores frondosas margeando o rio até a travessia de uma ponte de madeira, perto do terreiro.

O espaçoso barraco de madeira coberto de fibras de piaçaba, ficava à margem do caminho, era parada obrigatória dos matutos que vinham com os seus animais carregados de cacau, de farinha, galinhas, ovos, bananas e outros frutos da terra e retornavam com os tecidos, açúcar, óleo e outros produtos industrializados.

 Ali as bênçãos e os passes de Mãe Mariazinha era a devoção obrigatória, os cânticos afros e as batidas dos tambores afugentavam os maus espíritos, durante os dias, noites e nos finais de semana.

Os aposentos reservados de Mãe Mariazinha, ficavam numa casinha nos fundos do terreiro, junto à margem do rio cristalino, bem pertinho do poço da negra, acesso vedado a estranhos, refúgio santificado pelos deuses, privilégio de poucos.

Pois bem, Alfredinho Laranjeiras quebrou a hierarquia do terreiro, dizia-se filho de Ogum, tinha livre acesso, entrava firme nas cantorias, rodopiava entre as mulatas, era o mais festejado.

Mãe Mariazinha o adorava e ao vê-lo gritava alto no terreiro: - Chegou meu branco, meu filho de Ogum, abraçando-o e beijando-o.

Duda Capataz soube dessa história, enciumado, não gostou, sabendo que não tinha mais a mesma força no terreiro e interpelou o amigo:

- Alfredinho, meu companheiro, que historia é essa, você anda tirando onda de Pai de Santo no terreiro de Mãe Mariazinha.

Eu sou do ramo, você já levou uma surra do Pai de Santo Ambrósio, lá no terreiro da Baixa de Sapateiros, quando da festa do Bomfim, porque se fingiu de Pai de Santo de araque.

A turma em volta, tomando mais uma lapada, deu uma boa gargalhada, Alfredinho absorveu a provocação de Duda Capataz e respondeu:

- O que é isso, Duda, até você meu irmão! 

Está me estranhando, está com inveja porque tomei o seu lugar no terreiro? Agora entendo que, por essa razão, você não contou quando estava embriagado e levou uma carreira do terreiro de Mãe Mariazinha, do crioulo Pau de Ferro, filho de Oxalá, porque você passou a mão na bunda da sua mulher.

A gozação foi geral e Duda Capataz retrucou. Nada disso, nada disso, Laranjeiras, desconversou, implorando: Vamos acabar com essa discussão, vamos mudar de assunto, e levantou o copo para um drink, sem justificar a carreira que tomou quando fugiu pela trilha dos tropeiros até alcançar a descida da ladeira da Rua das Formigas.

Bem, era quase meia noite, todos estavam embriagados, a torcida agora pendia para Alfredinho Laranjeiras que aproveitou a ocasião para nocautear Capataz, dando-lhe o xeque mate:

- Amigo Duda, ciúme de homem é uma desgraça. Fique você sabendo que há mais de dois anos que freqüento todos os sábados o terreiro de Mãe Mariazinha onde sou tratado como um rei.

Danço entre as baianas, tomo a melhor cachaça, participo da mesa farta de caruru, vatapá, moqueca de peixe, galinha de cabidela que tanto aprecio e outras iguarias. Para recuperar as energias, na hora do descanso Duda, fumo o melhor charuto Suerdick, nos braços das mulatas.

E se você não sabe, Capataz, no finalzinho da tarde, por deferência especial de Mãe Mariazinha, seu branco, é o único a tomar banho no remanso das águas transparentes do Poço da Negra, nos fundos do terreiro, águas de cheiro, vestidos como Adão e Eva, massageado pelas pernas roliças e pelos seios macios das Filhas de Santos, os mais apetitosos de toda a Bahia.

- Quer vida melhor, hein, hein Capataz?

- Ah, você é um conversador, Laranjeiras, um gabola, embusteiro, de Pai de Santo você não entende porra nenhuma!

- Tá bem, Duda Capataz, posso não ser um legítimo Pai de Santo, seria até sacrilégio da minha parte, mas ninguém pode negar que sou batizado no terreiro, sou filho de Ogum, e se você não sabe, fique logo sabendo, sou sobrinho do Caboclo Papa-Cú.

Duda Capataz sentiu o golpe fatal, a platéia que assistia a discussão veio abaixo de tanto sorrir.

Alfredinho Laranjeiras, então, vitorioso, tomou o último copo de pinga, a noite ia longe e ele bateu solitário em retirada, caminhando pela avenida que dá para o bairro da SAICI onde morava.

Na escuridão, via-se o seu vulto magro, caminhando de um lado para o outro, um charuto na boca como se fosse uma lanterna de mão, parecia uma chaminé ambulante pelo rastro da fumaça que deixava atrás de si e, à medida que mais se afastava, desaparecia sob a proteção dos Orixás de Mãe Mariazinha.

» 1 Comentario
1"Muito bom..." de Fabio em 19 de março de 2008 07:28
Essa foi boa, muito boa mesmo. hehehehehehehehe
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