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Lá
venho eu com mais uma história gostosa de Ituberá, terrinha maravilhosa perto do
Recôncavo Baiano, atualmente apelidada de Costa do Dendê, abençoada pelos
deuses, que misturam os aromas das suas plantações, impregnando o ar que
respiramos quando percorremos os seus caminhos entre as suas árvores que nos
levam ao altar das suas belezas, inebriados pela magia dos seus incensos
florais que emolduram os nossos pensamentos.
É
nesse santuário ecológico que há mais de cinqüenta anos, surge a figura de
Alfedinho Laranjeiras, um sujeito bem alto, de pele clara, cabelos castanhos,
olhos pretos, nariz aquilino, com um gingado de malandro da Bahia.
Era
magro de pernas finas, barriga de cervejeiro, biótipo que evidenciava o gosto
pela geladinha, mas que não dispensava uma cachaçinha no final da tardes, num
barzinho próximo ao mercado no centro da cidade de Ituberá.
Novato
na cidade, logo se integrou aos veteranos boêmios, Alfredinho tinha por hábito
acompanhar as tardes, os colegas que trabalhavam na construção de um
ancoradouro, denominada ponte da SAICI, obra em execução pela construtora
Odebrecht.
A
pequena Ituberá, na época com cinco mil habitantes, com população de maioria de
negra, viu-se, de uma hora para outra violentada com a movimentação das
máquinas Carterpillar da Odebrecht derrubando as árvores seculares, estuprando
as terras virgens, vermelhas como sangue, indefesas pelo progresso na
construção do campo de pouso, na abertura das estradas pelas matas adormecidas,
agora apossadas pelos grupos empresariais interessados no cultivo da
seringueira, cacaueiros e dendezeiros.
Pois
bem, era na mesa desse barzinho que Alfredinho se reunia, ele um visitante
ilustre, ostentava um currículo de fazer inveja aos companheiros e nativos,
pois gozava da confiança dos diretores da construtora, para quem trabalhava em
Salvador, desde adolescente.
Mestre
de obra qualificado dominava os serviços de carpintaria, ferragens, armações,
aprendera a calcular e ler plantas, era líder, gozava da confiança do patrão,
de quem recebia missões até mesmo para fiscalizar outras obras importantes do
grupo, razão pela qual fora transferido para acompanhar a construção do
terminal na cidade de Ituberá.
Nascido
no bairro da Liberdade, tinha por hábito, nos fins de semana e quando não
estava no extra, de farrear, freqüentar o Mercado Popular, na Cidade Baixa,
tomar algumas pingas, comer feijão com mocotó e moqueca de peixe bem
apimentada.
Depois
se dirigia aos terreiros da Liberdade ou na Lapinha, onde desfrutava do melhor
conceito entre as Mães de Santo, que o chamava de meu branco, meu filho de
Ogum.
Esnobando
um currículo desse quilate, em pouco tempo era conhecido em Ituberá, tornou-se
amigo de Edvaldo Castro, conhecido como Duda Capataz, um mulato bem falante,
com quem logo se identificou, ambos experientes e com muitas histórias
vivenciadas.
Capataz
egresso do Porto de Ilhéus, onde trabalhara no período áureo do cacau, era
responsável pelos serviços da capatazia do porto, onde marinheiros, ajudantes,
e os donos dos saveiros, lanchas, canoas e navios tinham que prestar-lhe
reverência, era a autoridade máxima portuária, não abria mão das suas
prerrogativas.
Então
esses encontros britânicos se repetiam na mesa de bar, ao lado do mercado, onde
Duda Capataz e seus novos amigos entravam, noite adentro, sorvendo as rodadas
de pingas, saboreando os tira-gostos da terra, animando as conversas de
botequim.
Falavam
de tudo e de todos, atualizavam-se sobre as meninas novatas chegadas ao cabaré
da Nalva, lá no bairro Vai-Quem-Quer ou na casa de Donzela, de nome exótico,
uma experiente cafetina que ensinou Ituberá a trepar.
Mas
Augustinho, em pouco tempo, descobriu e tornou-se o líder do terreiro de
Mariazinha, uma velha Mãe de Santo, bem referenciada, com respeitável folha de
serviços prestados as dondocas da cidade.
O
terreiro de Mariazinha ficava no Bairro do Luiz, naquela época de difícil
acesso pela ladeira das Formigas, caminho de tropeiros, esburacados, árvores
frondosas margeando o rio até a travessia de uma ponte de madeira, perto do
terreiro.
O
espaçoso barraco de madeira coberto de fibras de piaçaba, ficava à margem do
caminho, era parada obrigatória dos matutos que vinham com os seus animais
carregados de cacau, de farinha, galinhas, ovos, bananas e outros frutos da
terra e retornavam com os tecidos, açúcar, óleo e outros produtos
industrializados.
Ali
as bênçãos e os passes de Mãe Mariazinha era a devoção obrigatória, os cânticos
afros e as batidas dos tambores afugentavam os maus espíritos, durante os dias,
noites e nos finais de semana.
Os
aposentos reservados de Mãe Mariazinha, ficavam numa casinha nos fundos do
terreiro, junto à margem do rio cristalino, bem pertinho do poço da negra,
acesso vedado a estranhos, refúgio santificado pelos deuses, privilégio de
poucos.
Pois
bem, Alfredinho Laranjeiras quebrou a hierarquia do terreiro, dizia-se filho de
Ogum, tinha livre acesso, entrava firme nas cantorias, rodopiava entre as
mulatas, era o mais festejado.
Mãe
Mariazinha o adorava e ao vê-lo gritava alto no terreiro: - Chegou meu branco,
meu filho de Ogum, abraçando-o e beijando-o.
Duda
Capataz soube dessa história, enciumado, não gostou, sabendo que não tinha mais
a mesma força no terreiro e interpelou o amigo:
-
Alfredinho, meu companheiro, que historia é essa, você anda tirando onda de Pai
de Santo no terreiro de Mãe Mariazinha.
Eu
sou do ramo, você já levou uma surra do Pai de Santo Ambrósio, lá no terreiro
da Baixa de Sapateiros, quando da festa do Bomfim, porque se fingiu de Pai de
Santo de araque.
A
turma em volta, tomando mais uma lapada, deu uma boa gargalhada, Alfredinho absorveu
a provocação de Duda Capataz e respondeu:
-
O que é isso, Duda, até você meu irmão!
Está
me estranhando, está com inveja porque tomei o seu lugar no terreiro? Agora
entendo que, por essa razão, você não contou quando estava embriagado e levou uma
carreira do terreiro de Mãe Mariazinha, do crioulo Pau de Ferro, filho de
Oxalá, porque você passou a mão na bunda da sua mulher.
A
gozação foi geral e Duda Capataz retrucou. Nada disso, nada disso, Laranjeiras,
desconversou, implorando: Vamos acabar com essa discussão, vamos mudar de
assunto, e levantou o copo para um drink, sem justificar a carreira que tomou
quando fugiu pela trilha dos tropeiros até alcançar a descida da ladeira da Rua
das Formigas.
Bem,
era quase meia noite, todos estavam embriagados, a torcida agora pendia para
Alfredinho Laranjeiras que aproveitou a ocasião para nocautear Capataz,
dando-lhe o xeque mate:
-
Amigo Duda, ciúme de homem é uma desgraça. Fique você sabendo que há mais de
dois anos que freqüento todos os sábados o terreiro de Mãe Mariazinha onde sou
tratado como um rei.
Danço
entre as baianas, tomo a melhor cachaça, participo da mesa farta de caruru,
vatapá, moqueca de peixe, galinha de cabidela que tanto aprecio e outras
iguarias. Para recuperar as energias, na hora do descanso Duda, fumo o melhor
charuto Suerdick, nos braços das mulatas.
E
se você não sabe, Capataz, no finalzinho da tarde, por deferência especial de
Mãe Mariazinha, seu branco, é o único a tomar banho no remanso das águas
transparentes do Poço da Negra, nos fundos do terreiro, águas de cheiro,
vestidos como Adão e Eva, massageado pelas pernas roliças e pelos seios macios
das Filhas de Santos, os mais apetitosos de toda a Bahia.
-
Quer vida melhor, hein, hein Capataz?
-
Ah, você é um conversador, Laranjeiras, um gabola, embusteiro, de Pai de Santo
você não entende porra nenhuma!
-
Tá bem, Duda Capataz, posso não ser um legítimo Pai de Santo, seria até
sacrilégio da minha parte, mas ninguém pode negar que sou batizado no terreiro,
sou filho de Ogum, e se você não sabe, fique logo sabendo, sou sobrinho do
Caboclo Papa-Cú.
Duda
Capataz sentiu o golpe fatal, a platéia que assistia a discussão veio abaixo de
tanto sorrir.
Alfredinho
Laranjeiras, então, vitorioso, tomou o último copo de pinga, a noite ia longe e
ele bateu solitário em retirada, caminhando pela avenida que dá para o bairro
da SAICI onde morava.
Na
escuridão, via-se o seu vulto magro, caminhando de um lado para o outro, um
charuto na boca como se fosse uma lanterna de mão, parecia uma chaminé ambulante
pelo rastro da fumaça que deixava atrás de si e, à medida que mais se afastava,
desaparecia sob a proteção dos Orixás de Mãe Mariazinha.
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1 Comentario
1"Muito bom..." Essa foi boa, muito boa mesmo. hehehehehehehehe
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