
Foto de Rafael Passos do Rafael Costa da Distro.
Eu não conhecia o mundo como festival. Era a primeira edição. Confesso que gostei do mundo instalado numa usina de energia. Não poderia imaginar parceria melhor. Pois bem, e não é nessa usina de um mundo ainda desconhecido que constato algumas obviedades vivenciais?
McLuhan estava certo. Bráulio Tavares está certo quando diz que “O que chamamos de Rock Brasileiro é na verdade um movimento de apropriação cultural completamente diferente do rock americano.” Estamos interligados, só que, nossa cultura é outra, nosso sotaque é outro, assim como na Finlândia, Japão ou Rússia.
Constatar que problemas no som, com a sudema ou orgão equivalente não se tornou exclusividade nossa, nem de nenhum festival mundo afora, é uma satisfação assaz estranha. Mesmo dentro de uma aldeia global, a sensação eteística, eternamente carregada, não se dissipou. Ouvi de uma garota que estamos no fim do mundo.
O fim do mundo é não ter amigos. O fim do mundo é não ter para onde voltar. É se perder em qualquer ponto entre o leste e oeste.
“A vida é extrema, nossa música é extrema”: lema ditado pela banda Dissidium. Com máscara do lendário personagem do filme Sexta-Feira 13, Jason, o vocalista e frontman, Williard (1) dominou o palco e provou a receptividade da platéia um tanto quanto atônita: “Você já tocou num corpo morto alguma vez?”. O primeiro verso da música Michael Myers foi inspirado no famoso serial killer criado por John Carpenter (2).
Quando delineou sua visão de aldeia global, no final dos anos 60, McLuhan não vislumbrou que, algumas décadas depois iria além, e muito além do que ele imaginou. Não podemos mais ser o fim do mundo, incauta moradora, embora tenha acreditado nisso um dia, mas persistir no erro é burrice, somos ouvidos no mundo inteiro, quer você queira ou não.
Com letras calcadas na filosofia oriental, R.I.D (Rest in Disgrace) já tem o seu primeiro cd gravado com quatro músicas instrumentais e quatro com os vocais de Rafael Basso (3). Foi a primeira banda a pisar no palco mundo com seu death/doom, onde uma platéia de oitenta por cento de camisetas pretas esperavam pela (con)sequência - de três bandas - do que tradicionalmente chama-se heavy metal. Em seguida o death metal do Soturnus tomou conta… Rafael fez falta, mesmo assim, a banda executou composições dignas de estarem entre as melhores no estilo…
“Simon Iff (4) won’t advertise my soul/The essence of my arts rests in the shade” (Simon Iff não expôs minha alma/A essência da minha arte repousa nas sombras). Dissidium sem sombra alguma de dúvida foi a revelação das primeiras horas do mundo.
Pode-se dizer que eles são frutos de uma geração um tanto quanto recente e promissora do circuito independente, representadas pelos Los Canos (5) e nos anos 80 pelos João Penca e seus Miquinhos Amestrados. Mandaram de cara “Familia que briga unida permanece unida” do Little Quail and the Mad Birds (6).
Cerva Grátis fez uma apresentação sem vacilos e com entrosamento, na abertura do que viria a ser a segunda parte do mundo. Além dessa, mandaram mais uma versão, dessa vez da Danko Jones, trio canadense que irá se apresentar no Festival Dosol (Natal – RN) em menos de um mês.
A guitarra, companheira de composições e das horas de tédio ensolaradas em terra potiguar, resolveu se rebelar contra seu dono e benfeitor, e sabotou de forma avassaladora a apresentação da Distro.
Fui puxar as orelhas do Rafael após show e ele me garantiu que tinha trocado as cordas da danada há mais de uma semana, vai saber…
Destaque para “My favorite life”, música que faz parte do mais recente e excelente lançamento da banda: “Chocolate with Pepper”. Apesar da espera para afinar a guitarra entre as músicas, a platéia, pacientemente, ouviu bons refrões, característica pertinente a banda.
Volto aqui a citar, mais uma vez, o sábio Bráulio Tavares: “Não tem nada a ver com lançar mão da música negra, acústica, rural, das comunidades mais pobres. É uma tentativa de imitar uma música que nos chega de fora; a tentativa de produzir “um similar nacional”. Não há nada de errado com isto, porque a maioria dos países faz isto, e não apenas os países subdesenvolvidos. Grande parte da vitalidade cultural dos EUA e do Japão se deve a essa sua disposição permanente de observar, imitar e reproduzir coisas que deram certo em outros países… A criatividade que houve se deveu aos talentos envolvidos (que foram muitos), e não à natureza do processo, que era basicamente imitativa.”
Lembro de ter comentado com Hugo Morais algo como: “o blues é um gênero que por mais obvio que seja e tenha um monte de clichês, ainda assim é vibrante!”. E é assim The Baggios. Muito a vontade com sua guitarra, Julio Andrade cantou e tocou composições próprias com base no velho e sempre pulsante blues. Às vezes com uma levada meio country, em outras com a guitarra fazendo a vez de um baixo, Baggios conquistou o público e foi conquistado também: “em João Pessoa vou ficar” cantou em um de seus refrões.
O baterista nos presenteou com um momento digno do fabuloso arizoniano John Convertino, vindo de terras tão desérticas quanto as nossas, quando tocou pandeirola com a mão direita. Tem futuro!
The Baggios foi a segunda revelação do festival.
O que falar do Burro Morto que de morto não tem absolutamente nada? A cada apresentação estão mais vivos e entrosados. Breve deverá sair DVD deles, estavam captando imagens.
Nem só de show vive o Festival Mundo. Fui ajudar meus amigos da Música Urbana (Robério e Ronaldo) e do Espaço HQ (Rogério, Val e Coppola) que estavam dividindo stand na feira do festival, perdendo as apresentações de Sacal e os franceses (Eklips, DJ Nelson e Marko 93), com os quais troquei meia dúzia de palavras logo cedo.
NOTAS:
1 – Um dos criadores da banda Medicine Death, baixista, compositor, filósofo e cantor.
2 - John Howard Carpenter nasceu em Carthage, Nova Iorque. Começou dirigindo curtas em 1962. Em meados dos anos 70 formou uma banda chamada The Coupe de Villes. Desenvolveu diversas funções na indústria cinematográfica, além de diretor, é escritor, ator, compositor e produtor.
3 – Vocalista e um dos fundadores da banda Soturnus em 2000. Rafael deixou a banda ano passado, num show de despedida na extinta Ksa Rock.
4 – Personagem de mini séries policiais escritas pelo guru maldito Aleister Crowley. Sim, ele mesmo, tema da música Mr. Crowley do Ozzy Osbourne, do álbum Blizzard of Ozz de 1980.
5 – Formada na cidade de Salvador em 2003. Participou dos festivais Mor-Março e MADA de 2004. Lançado pela Frangotte Records, selo independente da Bahia.
6 – Formada em 1988 no Distrito Federal, Brasília. Foram nove anos de estrada com os mesmos caras: Gabriel Thomaz (guitar/voz), Zé Ovo (baixo/voz), e Bacalhau (bateria). Lançaram dois discos e um EP. Várias músicas do trio tornaram-se verdadeiros hits no underground, mesmo sem a banda aparecer na MTV, nem tocar em nenhuma rádio mainstream.
A Música Urbana no mundo pode ser encontrada na Visconde de Pelotas, 138, Loja B, vizinho ao Espaço HQ, João Pessoa, Paraíba, Nordeste, América do Sul. Telefone 3042 3212.








